Dulce Maria Cardoso

ESCRITORA



O sexo e as relações amorosas vão passar a ter um AP e DP – Antes da Pandemia e Depois da Pandemia?

—— Inevitavelmente tudo vai passar a ter um antes e depois da pandemia. E a extensão desse antes e depois ainda está para se ver, porque vai depender de como nós controlamos a pandemia no tempo. Imaginemos que o vírus desaparece em breve, como desapareceu o SARS-CoV-1. Mas imaginem que não, e que vêm não sei quantas vagas. As pessoas vão ficando cada vez mais sofridas. E o amor e o sexo não estão ao abrigo da mudança.



O que é que a pandemia tem feito ao sexo e ao amor?

—— Tem servido para testar como é que se vive. A satisfação com a nossa vida. Penso que os solteiros ter-se-ão questionado sobre o seu celibato. E os que vivem juntos, sobre as suas relações. Porque como as circunstâncias mudaram os que vivem juntos passaram a ter que estar o dia inteiro com aquela pessoa terão necessariamente outro olhar. E terão surgido outros problemas. E para os solteiros a mesma coisa. Muitas vezes os que vivemos sozinhos contam muito com a interação social. E até sexual. Para equilibrarem o seu celibato. E isso também mudou. Portanto, serviu acima de tudo para ver as desvantagens e vantagens de cada estado.



Ainda andamos muito mascarados no amor e na sexualidade?

—— Sim. Ainda andamos muito mascarados. E a questão é cultural, evidentemente. Aliás, quando estive nos EUA e convivi com um grupo de norte-americanos estranhei que para eles é considerado abusivo se se questionar sobre as suas relações. Por exemplo, querer saber se se gosta daquela pessoa, se se pensa viver com ela, etc. Mas se lhes perguntar sobre algo de cariz sexual, que posição gostam mais, etc, eles falam abertamente. Não sei se serão todos os norte-americanos assim, e claro que será abusivo transpor a impressão que tive de uma amostra para trezentos milhões de pessoas. Mas a verdade é que nesse grupo composto por 20 pessoas, a intimidade não tinha a ver com o sexo. Lembro-me, por exemplo, de uma mãe que trocava dicas sexuais com a filha, como quem troca receitas. E que uma vez fiz uma pergunta sobre um desgosto amoroso que uma delas tinha tido, e o meu namorado na altura avisou-me para não o tornar a fazer porque era muito indelicado.
Portanto sim, há muitas máscaras. Muitas culturais, outras de género. Por exemplo, acho que os assuntos entre homens sobre sexo são bastante diferentes dos assuntos entre as mulheres sobre o mesmo tema. As mulheres preocupam-se mais com o propósito da relação e os ditos sentimentos, ‘ele gosta de mim, não gosta de mim’, ‘ele faz isto, faz aquilo’. E os homens mais focados na performance. Evidentemente que já se estão a esbater essas diferenças. Já temos homens preocupados com o propósito da relação, e com conversas intimistas com os seus amigos. E, por outro lado, mulheres a discutir pura e simplesmente performances sexuais.
Mas pode-se dizer que há ainda toda uma carga negativa em relação, por exemplo, à penetração. Há uma obsessão pela penetração e no estabelecimento dos papéis. No vernáculo português a grande ofensa é ‘vai apanhar no cu’. Como que o “dar” não é mau, mas “apanhar” já é muito mau. E o vai para isto, vai para acolá. Tem tudo a ver com estes papéis, com esta máscara com que escolhemos existir. Dos que têm poder e dos que aparentemente são vencidos. É uma ideia de poder e fraqueza. E isto evidentemente é uma construção cultural. Por isso sim, andamos muito mascarados. Não só agora as máscaras de proteção à Covid-19, mas com as nossas máscaras culturais, sociais e muitas vezes políticas. Porque o sexo é uma construção social e que tem bastante a ver com decisões políticas. Como, aliás, se vê como o mundo avança quando a lei permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a interrupção voluntária da gravidez.



E depois da pandemia, virá uma fase de grande loucura e libertação, como tanto se apregoa? Ou, pelo contrário, estaremos demasiado presos às máscaras, com mais medo das doenças, e habituados às distâncias e virtualidades?

—— A não ser que alguém tenha uma bola de cristal e consiga ver o futuro, ninguém consegue ver agora o que vai acontecer. Tudo depende da extensão da pandemia. E do quão nos causticará. As duas possibilidades estão em aberto. De uma grande festa, mas se o vírus, por exemplo, não desaparecer ou não ficar controlado, não me parece que a grande festa possa existir. E as outras ameaças que aí vêm. E a consciência que tivermos dessas ameaças. Não sei se teremos outra vez os loucos anos 20 do século passado. Mas diria que não, se tivesse de adivinhar. Diria que sairemos disto mais quebrados. E, de qualquer maneira, os loucos anos 20 foram um galope para o que de mais terrível aconteceu à humanidade: A 1ª e a 2ª Guerra Mundial e as outras guerras de permeio. Mas não sei responder a isto. Se eu um dia descobrir a bola de cristal eu volto. [risos]



A desigualdade de género ainda predomina em todos os planos? Na cama também?

—— Evidentemente que as mulheres têm agora mais poder do que a minha mãe tinha. Muitas mais mulheres vivem sozinhas, muitas mais mulheres decidem a sua vida. Até porque têm a independência económica. Mas a desigualdade de género ainda predomina, e bem. A relação ainda é de poder. Aliás, Portugal tem números vergonhosos de violência doméstica, e isso por si já seria um fortíssimo ponto negativo sobre o poder das mulheres. Porque a maioria das vítimas são mulheres. Mas há ainda um estigma social, aquele estigma de que se um homem tem várias amantes é muito bom e se uma mulher os tem, chamam-lhe nomes menos bonitos e já não é confiável, e já não se quer para ser mãe dos nossos filhos. Como, por exemplo, uma conversa horrível, machista, que eu ouvi na rua há um ano. Estavam dois homens a conversar numa esplanada e um deles dizia que andava com uma mulher, mas que ela era muito liberal e nunca poderia ser a mãe dos filhos dele, ‘porque já tinha muito passado’. Esta conversa ainda é possível e essa desigualdade de género claro que se arrasta para tudo. As mulheres não são só prejudicadas nos empregos, em todas as questões sociais e profissionais, e evidentemente também nas questões sexuais. Muitos homens ainda objetificam as mulheres. E muitas mulheres ainda se deixam objetificar e se objetificam. Porque é muito difícil não jogar segundo as regras que a sociedade impõe.



Acreditas nos amores românticos eternos? Ou apenas nos eternos enquanto duram?

—— Eu quero tudo eterno. Quero que tudo o que tenho na minha vida dure enquanto eu durar, nessa eternidade que a minha finitude contém. Mas não tem de ser sempre no mesmo formato. Acredito que um casal que viva muitos anos junto, e que se dê muito bem, que passado alguns anos já não esteja apaixonado e se calhar já não faça sentido viverem uma conjugalidade. E acredito que se podem continuar a amar de outra maneira. Até mais profunda. Acredito sim, nos amores românticos eternos. Não necessariamente sexualizados ou erotizados.



O que é o bom sexo?

—— É aquilo que adultos decidam fazer e queiram fazer. Não acho que haja aquela história do bom amante e da má amante. Acho que uma pessoa que se dê muito bem [intimamente] com outra, pode não se dar bem com outra terceira. E isso não quer dizer nenhuma falha. É um entendimento entre duas ou mais pessoas. E estará à medida do que essas pessoas desejarem e tenham prazer a fazer. Não acho que haja uma receita de bom sexo. Tem tudo a ver com vontade e liberdade.
Por outro lado, a ideia de prazer ainda é muito castigada, por causa do caldo judaico-cristão em que vivemos. E talvez até por isso as relações homossexuais sejam tão castigadas. Porque nas relações heterossexuais há sempre um preço a pagar que é o de poderem engravidar e criar um filho que, por muito que dê prazer a fazê-lo – espero – e a tê-lo, é um trabalho muito grande. É uma espécie de “gozas, mas pagas”. Mas nas relações homossexuais não há esse propósito da procriação e talvez também por isso sejam tão criticadas. E, no fundo, tão invejadas. Porque o prazer ainda nos é um conceito castigador. A redenção ainda se atinge sempre pelo sofrimento.



Em vários dos teus livros escreves sobre a sexualidade e o desejo das personagens. És da opinião de que tudo o que fazemos tem uma carga potencialmente sexual?

—— O sexo é tão importante na nossa vida. Aliás, há quem considere que é o mais importante. Ou, pelo menos, aquilo que é mais determinante nas nossas ações. Como outros aspetos [da vida] como o trabalho, a ação política, o ímpeto criativo. É tão importante quanto isso. E evidentemente em termos narrativos seria estranho não falar do assunto, ainda que deva dizer que para mim seja aquilo sobre o qual é-me mais difícil escrever. É muito difícil escrever sobre sexo. É muito difícil conseguir o equilíbrio e a elegância. Normalmente o que leio sobre sexo é mal escrito, ou é muito explícito, muito puritano ou muito voyeurístico. Enfim, é muito difícil conseguir-se o equilíbrio. Mas claro que sim. Que o sexo está sempre nas personagens e, às vezes, de forma muito explícita. Como no caso da Violeta [no livro “O Chão dos Pardais”] que vai às áreas de serviço para ter sexo com os camionistas de forma muito explícita. E penso que a contribuir para dar outro olhar sobre os desejos sexuais e as vontades das mulheres. Que estão ainda muito idealizadas, romantizadas com a conjugalidade e o amor romântico. Ou, por exemplo, na iniciação sexual em “O Retorno”, ou em “O Chão dos Pardais” quando o Afonso oferece ao empregado do hotel a amante num jogo de poder e humilhação. E sim, o sexo é uma parte determinante nos meus romances, no meu trabalho.



Quando podemos esperar o novo romance que continua a história de Eliete?

—— Já tornei público que as minhas circunstâncias mudaram muito, como mudaram as circunstâncias de todas as pessoas durante este ano de pandemia. Mas as minhas mudaram um bocadinho mais ao ter-me tornado cuidadora da minha mãe. Portanto, tenho de reorganizar a minha vida e o meu tempo. E se eu já tinha uma relação complexa com o tempo, ainda tenho mais agora porque escasseia-me mais. Mas de qualquer maneira, independentemente disso, nunca me consegui comprometer a prazos com romances. Porque tal como na questão sexual, a escrita para mim, vive muito de vontade e liberdade. Ou seja, eu tenho a vontade de escrever e tenho a liberdade de o fazer quando faço. Consigo comprometer-me com textos pequenos, mas mesmo assim sofro muito. Porque não sou uma autora disciplinada com horários, com o ‘ai agora tem de ser e vou fazer’. Portanto, tal como na questão sexual, para mim na escrita esta necessidade de ter a vontade e a liberdade para fazer ou não, é-me fundamental. Não consigo prescindir dela. Mas tenho a vontade de pôr em ordem o que está escrito da continuação do novo romance. E estou a criar as condições para que possa exercer essa vontade.





Bernardo Mendonça —— entrevista
Alfredo Cunha —— Fotografia

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