CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Aldina Duarte

“Crónica Feminina”

Gosto de oferecer flores a namorados e de lhes tricotar gorros, cachecóis e outros agasalhos. Convites para dançar e caminhar com o par certo podem colmatar alguns desencontros amorosos. Ser homem ou mulher é ser capaz de tarefas intercambiáveis. Faz bem aos dois. A divisão igualitária das tarefas domésticas e parentais parece-nos óbvia, mas é geradora de desigualdades profundas, resultando, sobretudo nas mulheres, em desinvestimento na vida profissional, por pura exaustão ou indisponibilidade. As que amam muito as suas profissões dificilmente têm filhos ou mais do que um. É sabido que até as circunstâncias pontuais da maternidade – gravidez e amamentação – são utilizadas como critérios de avaliação para a não renovação de contratos temporários, e resultam muitas vezes numa impossibilidade de progredir na carreira. A gravidez é o reconhecimento mais hipócrita da força feminina, socialmente falando: por um lado, legitima a acumulação das tarefas domésticas e profissionais, qual “burro de carga”, por outro, é a afirmação da sua capacidade, ou não, de vingar profissionalmente, apesar da sobrecarga.



As mulheres que gostam de sexo… mas não são todas? – pergunta-se – Não, não são. As que não gostam são mais controláveis, entenda-se melhores para casar, ou mais desafiantes, ou são até uma boa justificação para a infidelidade. Não são raras as vezes em que a traição acontece por crises pessoais e não conjugais. A sexualidade desinibida e prazerosa das mulheres, aliada ao seu sucesso profissional, inteligência e charme feminino ainda assusta muitos homens no que diz respeito a qualquer tipo de compromisso com as mesmas. O tempo do engatatão e da vadia, duas visões opostas para a mesma realidade, não acabou e tem consequências danosas para as mulheres, ao ponto de, em tribunal, legitimar a violação! Quantas de nós já tiveram de pensar no tamanho da saia ou do decote, na transparência do vestido ou da blusa, aquando de uma entrevista de trabalho ou na apresentação de um projecto em que queremos ser ouvidas com respeito, ou mesmo, e até é penoso dizer isto, quais as cuecas ou soutien a usar numa ida ao médico.



A descoberta e a construção do amor entre casais, infelizmente, não têm sido suficientes para desfazer esta mentalidade infame que perdura e pesa sobre as mulheres do mundo inteiro, a começar pelo difícil papel, na educação dos filhos e, sobretudo, das filhas. As mulheres, ainda a seu desfavor, continuam a cair, sem pensar duas vezes, na armadilha da rivalidade: assim que há um homem no centro da história, veja-se nos triângulos amorosos para onde se dirige o ódio, a culpa, o alvo a ser atacado.



Voltando ao mundo do trabalho, e em quase todas as profissões, a maior parte dos cargos de chefia e direcção está na mão dos homens ou – quantas vezes – das mulheres que se tornam suas cúmplices absolutas. O pagamento de salários inferiores por tarefas similares, a violência doméstica, ou outras realidades vergonhosas fazem parte de uma luta que não pode ficar alheia a todos os que acreditam nos direitos humanos. Um exercício de empatia que sugiro é o seguinte: por momentos, imagine o que é viver como mulher e, já agora, ser negra e lésbica, na sociedade onde está inserido…




Aldina Duarte —— fadista, letrista

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