CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Nelson Nunes

A natureza de uma ‘crush’

O que eu não sei é tanta coisa. Não sei se serás a minha morte ou o meu shangri-la. Não sei se, daqui a exatamente um ano, seremos meras memórias esconsas na quinta sub-cave das nossas mentes ou se seremos o ambiente natural um do outro. Não sei se fizemos uma viagem inesquecível, mesmo que tenha sido de cabeças repousadas na mesma almofada, ou se seguimos caminho para longe um do outro. Há tanto por saber, e é estranho que este tanto se baseie em quase nada. Numa mão cheia de fotografias percorridas num mural digital e de sete ou oito palavras timidamente trocadas.



A natureza de uma crush não é simples de deslindar. É por isso que parece tão perigosa, para nós, que a temos, mas ainda mais para o alvo da nossa inexplicável paixão, que facilmente pode olhar para nós como uma novíssima versão do Ted Bundy – ou nem sequer olhar para nós por termos uma cara semelhante à parte de trás de uma girafa, e por não sermos uma personificação visual exata do quão extraordinária é a nossa personalidade. A falta de argumentos está na base desse aparente perigo. A falta de conhecimento do outro e a esperança desregrada também. Porque sentimos uma determinada paixão apenas por uma fotografia, por um olhar longínquo, por um timbre de voz ou simplesmente por uma ideia que saiu da cabeça dessa pessoa que, agora, nos parece um maná? Não há motivos racionais – mas não é isso o que se quer no amor?



A crush nem sequer chega a ser ‘estar apaixonado’. Mas também é mais do que um mero interesse nas ideias daquela pessoa ou no suspiro diante dos seus lindos olhos. Está ali a meio caminho. É uma antecâmara da paixão. E, por causa da lei das infinitas possibilidades, damos por nós a imaginar o que queremos e não queremos: uma viagem a um sítio que não conhecemos, os passeios por sítios onde já estivemos, os problemas que teremos, até o aborrecimento de estar a ver um filme ranhoso debaixo de uma manta numa noite invernosa. E o poder da crush é esse: até o que não é excitante nos excita. “Quem me dera ter problemas com esta pessoa”, dou por mim a pensar. Porque problemas todos teremos, e nós escolhemos sempre os nossos, voluntária ou involuntariamente. Há quem diga que isto pode ser uma idealização ou uma projecção, mas eu prefiro a definição mais romântica: são planos para um futuro eventual.



Como escolher então este problema? Como ter sorte com alguém que mal saberá da nossa existência? As teorias da psicologia sobre a sorte dizem-nos que o universo não conspira contra nós nem a nosso favor. O valor da serendipidade está na nossa apetência para nos expormos ao risco. Se provocarmos um conjunto de circunstâncias, talvez descubramos o que nunca sequer imaginámos possível. Se calhar, o grande segredo do amor – ou da mera paixão fortuita – está na exposição ao risco. Porque, e perdoem-me a falta de romantismo, não creio que haja uma única alma gémea que nos esteja destinada, mas antes uns quantos milhares de pessoas espalhadas pelo globo com as quais poderíamos ter uma bonita e duradoura história de amor. Resta brincar às probabilidades, com a dose certa de realismo, e encontrar uma dessas almas gentis. E mandar os contos de fadas da Disney às urtigas por nos terem condenado a promessas fantasiosas.



Desde há uns anos para cá, sofro de um mal a que convencionei chamar de “medo com retroactivos”: trata-se de um medo mais ou menos habitual que me assalta, sempre que imagino nas coisas fenomenais que não me teriam acontecido se eu não tivesse feito a coisa X. Mero exemplo: se eu não tivesse escrito um texto algures aos quinze anos, para combater o aborrecimento, toda a minha vida teria sido completamente diferente – não teria a profissão que tenho, não escreveria livros e não teria tido todas as coisas extraordinárias que me têm acontecido por causa da escrita. A sorte é isso: pormo-nos a caminho dela. Se não fizermos alguma coisa para reunir as circunstâncias para sermos sortudos, deixamos de ter direito ao queixume caso tenhamos azar.



Expormo-nos ao risco só traz vantagens, parece-me. Sim, às vezes pode aleijar, mas na maioria das ocasiões acaba por compensar. Porque, se nos derem uma tampa, ao menos sabemos que fizemos o que podíamos. Estar numa espera constante, reféns do “e se?” sem que façamos nada para encontrar respostas, acaba por matar-nos devagar. Como diz a minha banda predileta, a esperança é uma prisão. Por outro lado, imaginemos que o risco compensa. Imaginemos que um conjunto de acções nossas acaba por alertar o lado de lá (que pode estar completamente alheio ao facto de sentirmos qualquer coisa estranha e inexplicável), e que acabamos por dar início a uma sequência de eventos que culminará num amor. A beleza da vida está no fato de nunca conhecermos ao certo o que mora no amanhã.



E correr riscos tem, pelo menos um valor, mesmo que não se encontre o amor ou um sucedâneo seu: o risco dá-nos sempre uma boa história. Seja ela para usar num desabafo entre amigos (“disse-lhe que estava apanhado por ela, e a miúda desapareceu, cheia de razão, não há como censurar-lhe o susto”), ou para contar aos netos que o avô, um dia, escreveu um texto jeitoso sobre uma crush para explicar à avó o que sentia por ela.



Nelson Nunes —— escritor

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