CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Mitó Mendes

Um palco

Um palco não é apenas um palco.Um palco é um lugar que muitos chamam de sagrado, onde tem lugar uma catarse infinita de pulsões, tensões internas, sofrimentos, frustrações, aborrecimentos, desejos…


A entrada de um artista no palco já implica uma tensa preparação prévia. Não apenas da voz e do corpo. Mas também dessas pulsões anteriormente referidas. Preparar os sentimentos para serem mostrados, para serem exibidos, descarnados à frente do público.


Nos dias em que me sinto mais endiabrada essa preparação toca-me todos os sentidos. Revejo o texto ou as letras das canções, e sinto na pele, no paladar, no olfato, os sentimentos que vou representar. Vejo dentro da minha cabeça o filme das palavras que estou a dizer. É uma sensação bastante libidinosa posso afirmar.
No meu caso, as palavras pesam muito para esse ritual de “aquecimento dos sentidos”. Alguns textos que admito serem brilhantes não me provocam qualquer pulsão interpretativa, por muito que a provoque. Enquanto outros sem prodígios literários me podem virar do avesso.



Passei a entender então a performance também como um ato erótico, mesmo não estando relacionada com sexo. A libido motiva a interpretação, na medida em que aciona os mecanismos para a fruição do que se está a dizer, e gera os movimentos que a acompanham.


A filosofia francesa da segunda metade do século XX deu uma ajuda importante na reflexão destes conceitos. Jean-François Lyotard e Gilles Deleuze foram os que mais a aprofundaram.


Ambos se detiveram na busca da verdade na representação. Lyotard refere mesmo que actuar não pode acontecer sem sofrimento. Um sofrimento que não se ganha ali. Chama-se. Chama-se do interior do intérprete. Prepara-se o corpo e a mente de modo a que, durante o espetáculo se alcance essa “energia”, a energia certa que permita a ocorrência de uma série de pulsões, ativadas por tensões.


O materialismo existencial de Gilles Deleuze e Jean-François Lyotard propõe que a obra apresentada comece no processo físico do momento em que é observada pelo espectador. É isso que lhe confere a verdade da representação.


Estes conceitos podem ser validados no espaço cénico do teatro, da dança, de outras artes performativas e musicais. Eu vivo-os muito nos meus concertos.


Detenho-me agora no papel dos espectadores nesta “cerimónia”. À minha frente estão as pessoas que decidiram vir assistir à minha catarse de pulsões chamemos-lhe assim. Pensam previamente no que vão vestir, onde vão comer, a que horas têm de chegar, pagam o bilhete, assistem à minha proposta de fantasia, no fim aplaudem. Comentam entre eles com o ar mais entendido que conseguem acerca do que ali se passou. São pessoas com toda a sua vida a observar-me. Com as suas memórias emocionais, histórias de vida, sonhos, obsessões, perversões, fragilidades, mentiras e verdades. Não são apenas um pormenor neste jogo. Fazem parte desta trajetória vital onde se encontram e se tocam os nossos desejos e dúvidas. As nossas tensões internas. É nos nossos corpos que sentimos. Artistas e espectadores. Só nós sabemos.


Uma letra apenas distingue tensão e tesão, não será por acaso. A arte sem ambas não existe.



Mitó Mendes —— música e atriz

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