CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Marta Chaves

Todo o tempo é eternamente presente

O DO AMOR * 

Espaço sem portas, sem entradas, o do amor. 
O primeiro desejo dos amantes 
é serem velhos amantes. 
E começarem assim  
o amor pelo fim. 

Regina Guimarães * 



Talvez este poema provoque as pessoas, pois ao lê-lo, revêem-se no desejo que enuncia: serem velhos amantes. Às vezes, é mais fácil tomar consciência de algo, através de uma leitura que se transforma num espelho.  

A vontade de satisfazer o desejo de alcançar um patamar que está, entre outras coisas, à mercê da passagem do tempo, implicará segundo uma das múltiplas leituras do poema, começar o amor pelo fim. Seguir esta proposta levanta a suspeita que algo não bate certo, isto é, que o relógio da fantasia pede muito ao tempo do real. 

Muitos entenderão quão humano mas ingrato será, querer chegar ao fim de algo que está a começar. Mais do que ingrato, é inútil, pois a tarefa é impossível de realizar. Se o tempo é o presente, saltar muitas casas deste tabuleiro, fará perder de vista o lugar onde se está. É deste salto que as pessoas não dão conta, mas estranhamente procuram. Porquê sair de algo onde se está a entrar? Se estão bem, porquê querer ver como acaba? Significará que têm medo de estar bem e/ou vir a ficar mal? 

Há quem justifique que este desejo (de começar algo pelo fim) advém da expectativa de ter a garantia que não se esteve a “perder tempo”, que “aquela é a pessoa certa”, de “estar no mesmo ponto/querer o mesmo”. Todas estas inquietações retiram as pessoas do lugar em que estão e catapultam-nas para o que ainda não aconteceu. Acabam por aterrar num lugar de impossibilidade, de dúvida maior do que as dúvidas que possivelmente já tinham e claro, ficam aflitas. Estão em lugar nenhum: nem no aqui e agora e muito menos no que está ou não para vir, posto que ainda não aconteceu.  

Garantir é assegurar algo e sabemos que se fosse possível ditar o rumo de uma relação, supondo que a garantia era de que não ia correr bem, muitas pessoas lutariam por ela, aceitariam o desafio de contrariar o destino de que foram avisadas. Seguindo a mesma lógica, se fossem asseguradas que correria bem, se tivessem essa garantia, outras tantas talvez não ficariam para ver.  

Nem a paixão nem o amor trazem garantias. Esse é o mistério que vale a pena viver. Saltar imediatamente da paixão para o amor, que é o que no fundo está em questão, é uma acrobacia que pode parecer espectacular, mas não passará do ensaio de um movimento precário. Para quê, então, viver estas dimensões como se estivéssemos num ringue a lutar contra nós, em vez de trilhá-las no território aberto das possibilidades? Para quê fazer das emoções um combate em vez de aceitar o embate? Tendenciosamente, a intensidade surge associada à paixão e ao sexo. Raras vezes é associada ao amor. Não serão os velhos amantes pessoas intensas? Intensas na sua permanência? Só o que é transitório é intenso? O amor é forte ao durar, logo é intenso, activo, veemente. Se a paixão empolga e impressiona, o amor aproxima e une. O amor continua o que a paixão não pode. Daí que a perda de controle associada à paixão, promova o desejo de chegar ao planalto que se imagina que o amor seja, e uma vez lá, há quem se queixe da falta dos componentes da paixão. Que é feito do primeiro desejo dos amantes de que o poema fala? Será afinal este desejo, o princípio do fim ou outra leitura do poema levará a querer chegar ao princípio do princípio? 

O primeiro verso do poema de Regina Guimarães anuncia um “Espaço sem portas, sem entradas”, como sendo o lugar do amor. É um espaço que nos pode levar a concluir que continuar a gostar pode vir a significar começar a amar. Parece-me um bom lugar.  

*Quatro Quartetos, T. S. Eliot (Tradução de Gualter Cunha, Ed. Relógio D’Água, 1994) 
*Antes de mais e depois de tudo, Regina Guimarães (Editora Exclamação, 2020)




Marta Chaves —— psicóloga clínica, psicoterapeuta e poeta

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