Ivo Canelas

ATOR

O que é que a pandemia tem feito ao sexo e ao amor?

—— Depende muito da experiência de como a passaste. Se a passaste acompanhado ou sozinho. É completamente circunstancial de onde é que uma pessoa está, se sozinha ou dentro da relação, em que fase da relação é que está ou qual a sua capacidade de estar 24h sobre 24h com a outra pessoa. O facto de, de repente, não haver compromissos nenhuns é uma mais valia ou valia nenhuma? Lembro-me de ler coisas sobre casais já na idade da reforma em que este isolamento lhes conferiu uma maior carga e redescoberta sexual e até de redescoberta do consumo de erva, marijuana. Portanto, pode ter sido um momento extraordinário de encontro sexual, ou de profunda tensão ou solidão.


Passaste por alguma solidão nestes tempos?

—— Também, com certeza. Passei várias coisas diferentes. Tenho um lado algo bicho-do-mato. Há aqui qualquer coisa nestas circunstâncias que batem de alguma forma certo com a minha maneira de ser. Há uma tendência já natural para algum isolamento, que isto exacerba, mas que eu não estranho completamente. Pessoas mais sociais do que eu terão um desafio maior, imagino eu. Mas sim, também passei por momentos de isolamento e o escape foram estas minhas leituras, nesta tentativa de contacto, mas também tive momentos de profundo contacto. Contacto comigo mesmo. Contacto com quem partilhei momentos no ‘lockdown’ onde de uma forma quase infantil, de como quando éramos miúdos, de repente ía passar o fim de semana a casa de alguém. Isto pode ser visto como uma enorme prisão, mas também como uma enorme libertação.


Libertação? Sentes mesmo esta experiência assim?

—— Oh pá, tudo aquilo que te posso dizer agora posso mudar daqui a 3 horas. Oscila mesmo. Fica tudo mais fácil quando está sol, obviamente. Fica mais fácil se estás num sítio com espaço ou se vives encafuado. No primeiro ‘lockdown’ estive muito fechado em casa, o meu apartamento era pequeno. Neste segundo estou num sítio maior e faz toda a diferença. E agora adotei uma cadela, a Elis, e isso trouxe outra cor à minha realidade.


Tens 47 anos. O que é o amor para ti?

—— Continuo a achar que o amor é o tempo que nós damos às coisas. Infelizmente ou felizmente não consigo especificar muito mais do que isto. Nem sei se consigo dar muito tempo ou pouco tempo às coisas. É um daqueles assuntos onde eu me sinto menos versado. Sinto que tudo o que possa dizer é mais ‘wish full thinking’ do que realidade empírica.


E o que é para ti bom sexo?

—— É acima de tudo comunicação. Desejo e comunicação. Ou se calhar o desejo de comunicação. O bom sexo para mim é a vontade de provocar prazer. E o prazer é um bocadinho como a generosidade e disponibilidade. Tudo o que tu dás é-te devolvido. É sempre uma procura do prazer do outro que depois é-te sempre devolvido.


A sexualidade ainda anda muito mascarada? Ainda há muitos medos e preconceitos para desconstruir?

—— Absolutamente. A sexualidade é das formas de expressão mais profundas do ser humano. O facto de ser tão profundo e tão revelador de quem somos provoca tensões. Eu tinha uma namorada que sobre [as suas ] fantasias fazia uma espécie de disclamer: “Olha isto é uma fantasia. Não está a acontecer na realidade.” E esse disclamer era uma forma que ela tinha de poder entregar-se à fantasia sem o medo de pensar que a fantasia era ela. Mas o que é interessante é que a fantasia… também é ela. O que não significa que esta deva ser a forma como a devemos olhar. É um escape. Por isso é que é tão bom quando encontramos alguém em quem confiamos e com quem jogamos no mesmo campeonato. Porque acontece jogarmos em campeonatos completamente diferentes na busca do prazer. Já me aconteceu encontrar outra pessoa em campos completamente diferentes que a mim não me diziam nada e à outra pessoa também não. E, às tantas, temos de dizer: “Olha, que engraçado, isto não vai dar.” O desejo está lá, mas a linguagem é tão radicalmente diferente. Que não vale a pena insistir muito.


Mas há muitas máscaras?

—— Sim, há imensas máscaras. Não só quanto às questões de género, como às questões de poder. Os papéis de género na sociedade depois também se refletem, para o bem e para o mal, na cama. Para o bem refletem-se como libertação desses papéis. Mas para o mal refletem-se como uma espécie de reprodução das linhas de poder que existem na sociedade. E a pandemia está revelar ainda mais estes gaps. Como o facto das mulheres receberem menos do que os homens e terem menos validação por isso. E na cama isso também acontece de alguma maneira. Uma espécie de direitos diferentes que não é justo de forma alguma.
Veja-se a forma como a Igreja Católica nos incutiu uma série de códigos que tanto nos limitam. Mas, por outro lado, na vontade de nos libertarmos deles está a grande excitação. Essa vontade de romper com aquilo que nos prende. Mas se nós tivermos a sorte de nos cruzarmos com pessoas disponíveis, livres na sua sexualidade, que nos transmitam essa liberdade, a natureza encontra sempre o seu caminho. E aí é muito provável que encontraremos um caminho de uma sexualidade feliz. Mas basta cruzarmo-nos com a pessoa ‘errada’, ou com um quadro sexual menos livre, que pode ser desestabilizador e limitador.


Qual a importância que dás à sedução e à sensualidade?

—— Total. Havemos de ser velhinhos e já não teremos provavelmente capacidade de praticar o coito, mas esperemos ainda ter o discernimento e a capacidade de seduzir com o olhar, com a conversa, com as ideias, com as provocações. Se tivermos de abdicar de alguma coisa na sexualidade que não seja na sedução, nem na sensualidade. Porque o lado físico da concretização é maravilhoso mas…


Mas a sexualidade é muito mais do que isso, não é?

—— Fogo. Deixa-me aqui fazer uma imagem do futebol. Eu que nem gosto de futebol. De toda a beleza do jogo de ver uma bola a ser passada num campo inteiro o golo é o menos importante. A baliza é o menos importante. Todo o baile até à baliza é o que é para mim mais fascinante e interessante. E um dos momentos mais marcantes e excitantes da sexualidade das pessoas é quando ainda virgens, tudo o que está antes da primeira vez. Eu perdi a virgindade muito tarde. E isso para mim foi algo que me marcou muito no sentido de desfrutar de tudo até à concretização.


A sedução está fora de moda?

—— Acho que não. A sedução está um bocadinho narcísica. São os homens e as mulheres a tirarem fotografias a si próprios a olharem para si próprios no telemóvel. Somos tão os nossos próprios realizadores, os nossos próprios entertainers, que nos estamos a esquecer de olhar para o outro. ‘Hey, olha para mim.”


Recorda-me um momento que te ficou na memória do teu espetáculo “Todas As Coisas Maravilhosas”, a partir do monólogo escrito pelo inglês Duncan Macmillan.

—— Lembro-me de um abraço que uma senhora me deu no final do espetáculo absolutamente desarmante. Veio lançada do seu lugar direto a mim, abraçou-me e sem dizer mais nada foi-se embora. Foi mesmo marcante esta comunicação em silêncio, através de um abraço.


E andamos todos com falta de abraços, de beijos, de toque.

—— Fogo. Antevejo com expectativa e alguma ansiedade o momento de estarmos todos na Praça do Comércio, em 2023, de sunga a darmos beijos na boca com língua e a partilhar uma garrafa de vodka com a Praça inteira. Acho que vem aí um período de sexualidade explosiva como aquela que aparece no verão em Nova Iorque ou no Brasil. Agora está uma coisa muito contida e quando sair, saiam da frente. Mas, por outro lado, acho que esta contenção está carregada de erotismo. As máscaras têm um erotismo muito interessante. Porque, de repente, os olhos tornam-se algo muito forte. Termos de descobrir o que está escondido. E o toque. Sempre gostei de dar beijos, sempre cumprimentei as pessoas à boa maneira portuguesa, com dois beijinhos. Gosto muito de dar dois beijinhos em mulheres e em homens. Mas também gosto daquela coisa nova iorquina de cumprimentar as mulheres com um aperto de mão. Acho super erótico. E lembro-me do Ray Charles dizer que sentia o corpo da mulher através do tamanho do pulso. Ele dava um aperto de mão com a mão direita, mas punha sempre a mão esquerda sobre o pulso delas e conseguia determinar que tipo de cores elas tinham através do tamanho do pulso.


Qual o filme que representa para ti o esplendor do erotismo e da sensualidade?

—— Há um filme que em miúdo me marcou à brava e que hoje curiosamente é um filme que não tem envelhecido muito bem, que é o “Ata-me”, do [Pedro] Almodôvar. A cena de cama do [António] Banderas com a Victória Abril é altamente erótica. Era ali um jogo de forças equilibrado entre um homem e uma mulher. Sempre achei aquilo muito bonito. E, em retrospectiva, à luz do “me too” pode levar porrada. Ele basicamente decide que ela vai amá-lo e amarra-a até ela perceber que o ama. No cinema interessa-me à brava as sexualidades hipercomplicadas. É sempre uma coisa que me faz imenso pensar. Outro filme que me marcou muito foi o “Lua de mel, Lua de Fel” [do Polanski]. Mas, por exemplo, o filme “A Pianista” [De Michael Haneke] já ultrapassa a minha capacidade de digestão, por ser tão violento. O “Irreversível” [De Gaspar Noé] é outro filme do ponto de vista sexual altamente marcante para mim, pela violência e sensualidade. Mas só pelo lado da sensualidade lembro-me do “Coração Selvagem”, do David Lynch. A Laura Dern e o Nicolas Cage a subirem as escadas para irem para o quarto, ele a apalpá-la e ela dizer-lhe: “Estou mais quente que o asfalto da Geórgia.”


Enuncia uma frase, uma excerto de um poema ou de um texto que seja para ti bastante ‘quente’, como esse asfalto da Geórgia…

—— Uma frase do Virgílio Ferreira que contém um feminino num sítio que é masculino, que eu acho interessante. Que vem no livro “Em Nome da Terra” (1990) em que ele já está velho, num lar de terceira idade e está uma enfermeira a dar-lhe banho e ele sente que deixou de ser visto como um ser sexual. E enquanto ela está a dar-lhe banho “pega na sua força macha’. E está a referir-se ao pénis dele e lava-o como se fosse um objeto qualquer. E eu gosto muito desta palavra feminina em algo masculino. É super tesuda esta imagem da ‘força macha’.






Bernardo Mendonça —— entrevista
Anthony Batista —— fotografia

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