crónica —— dentro de mim

Marta Crawford

Brava

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Havia um antes de e um depois de. Antes de, tudo era confuso, estranho e difícil de compreender. Depois de, tudo começou finalmente a fazer sentido. Luana tinha-se iniciado sexualmente muito nova, no tempo em que a vontade e a razão não se deitavam na mesma cama e as coisas aconteciam porque alguém as ditava, exigia ou, simplesmente, porque a levavam pela mão. Nesse tempo, tudo o que fazia não tinha brilho. Saltitou de mão em cama, acreditando que “aquilo” era mesmo assim e que não havia mais nada para esperar de um encontro íntimo. Na infância ou juventude, nunca lhe falaram de sexualidade de forma positiva, nunca lhe ensinaram o que era o prazer. Da mãe, nunca teve uma palavra. A intimidade era uma das obrigações que fazia parte do pacote indispensável para ter um namorado ou um marido, nada mais. E, por isso, cumpria. Não era bom, não era mau, era somente nada.



Quis o destino que alguém, além de lhe dar a mão e convidar para a sua cama, a questionasse sobre o seu prazer. Era primeira vez.
Por cada nada que ela sentia, ele perdia o muito que tanto queria. E foi nesta balança de perdas sucessivas, que decidiram pedir auxílio. 



Quando não se compreende o corpo e se tem pouca informação sobre sexualidade, o que predomina são enganos e crenças que cada vez vão parecendo mais reais.
Luana era uma mulher inteligente, lutadora e meiga, mas não sabia nada sobre os prazeres da cama, da possibilidade de os sentir, da alegria de os viver.
Disseram-lhes que procurarem sinais de excitação, que recorresse a memórias boas, sonhos, sensações simples, o vento a afagar-lhe o rosto, o sol a torrar-lhe a pele, um mergulho no mar, uma bebida fresca num dia escaldante, um abraço e tudo o mais que a fizesse conectar-se com algo positivo. 

Disseram-lhe também para começar a observar-se, a olhar-se intimamente, a tocar-se como quisesse – não existiam formas certas ou erradas. Nunca se tinha observado, por pudor ou, simplesmente, por achar que não era suposto fazê-lo. Aceitou o desafio.

Quando chegou a casa, sentou-se à mesa de jantar para recomeçar o teletrabalho. Ouviu o cantar do vizinho do lado, um contratenor extraordinário. Parecia o Stabat Mater de Pergolesi. Por vezes, quando saía de casa e o vizinho ensaiava, deixava-se ficar a escutá-lo sem se mover.



Fechou os olhos e concentrou-se naquele embalo libertador. Sim! era a Dolorosa que ouvia, era inconfundível e aquelas vozes invadiram o seu cérebro. O seu corpo começou a descontrair e tocou-se sentada à mesa de jantar.
Começou a fantasiar, talvez pela primeira vez na vida. Recordar aquele beijo memorável, a sensação inquietante de sentir o coração a querer saltar-lhe do peito. Lembrou-se das centenas de borboletas azuis que lhe tinham saído da barriga e que esvoaçavam à sua volta. Nesse dia tinha-se sentido especialmente feliz. De repente começou a sentir algo, um tremor, um frenesim alarmante, desconhecido, mas que crescia, que a fazia vibrar. Abraçou, de pernas abertas, as costas da cadeira e roçou-se, vestida. Depois, ao encontrar a dureza de um ângulo certo, fez pressão sobre a vulva. Sim, ela tinha uma vulva.

Percebeu que, ao pressionar o corpo com mais ritmo, a sensação se intensificava e fazia-a sentir-se entusiasmada. Ouvia a voz do vizinho dentro de si. Insistiu, inspirou, insistiu, expirou, insistiu e a respiração ficou de tal forma ofegante que a fez vibrar até ao descontrolo total. O seu corpo começou a tremer, a ter espasmos e contrações, e ela sentiu necessidade de gritar, de gritar muito. Os olhos fecharam-se numa espécie de fotofobia. O coração pareceu querer sair-lhe pela boca, sentiu calor e ao mesmo tempo um arrepio imenso. As pernas fraquejaram e pensou que tinha morrido. 



Mas não morreu. Seria apenas uma petit mort como diriam os franceses, e essa era apenas a primeira de muitas outras. Brava

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