CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Ana Aresta

À pornografia me confesso

Sempre a vi, mas com culpa. À pornografia, digo. Não me revia nos corpos, nos atos, nos gritos, nas tesouradas, nas unhas gigantes esfregando em esforço aqueles clítoris que me pareciam sexualmente infelizes. Sempre me vim, mas com culpa. De saber que o meu prazer podia estar diretamente relacionado com maus-tratos físicos, exploração sexual e laboral, migração forçada ou discriminação de género.



As experiências sexuais da minha adolescência não incluíram outros corpos que não o meu. O armário não deixou. Mas a autonomia do prazer não era um problema para mim. Antes pelo contrário. Deixou-me conhecer o meu corpo e os meus gostos, num ato de auto-amor inconsciente que hoje em dia me permite fazer sexo respeitando os meus desejos e os desejos do outro corpo lésbico que me acompanha nas aventuras da vida.



Foi o cruzamento destes dois mundos que começou a gerar desconforto, principalmente à medida em que a minha consciência social e cultural se ia desenvolvendo. As brincadeiras com pornografia foram sendo introduzidas por amigos (e algumas amigas) da escola, com as revistas adquiridas na ilegalidade, o canal 18 visto em segredo, o histórico apagado depois das pesquisas em sites manhosos no tempo dos computadores partilhados pela família.




A pornografia foi-se tornando parte ativa da minha vida e condimentou as minhas imaginações. Só que enquanto o estímulo visual sabia bem no seu sentido mais simples, a verdade é que eu não me revia naquele tipo de sexo: desigual, violento, machista e normativo da realização “cinematográfica” às práticas interpretativas, sem conversas, sem risos, extremamente duro nas posições e maquinal nos gestos.




A pornografia facilitava-me os orgasmos, mas complicava-me os ânimos e empurrava-me para uma certa solidão. Queria-a – e ainda a quero –, mas não assim.


Foi já no seio do ativismo LGBTI que descobri que há outro mundo pornográfico para além deste: o da inclusão, do trabalho sexual bem pago e desempenhado por profissionais que querem fazer parte do mundo do prazer e que têm prazer com isso; das pessoas realizadoras que têm cuidado com a mensagem política que fazem passar através dos seus vídeos e redes sociais; dos corpos multiplos, diversos; do cruzamento de identidades e expressões de género livres das amarras dos fetichismos sociais.



Deste grupo de pessoas e projetos pioneiros – afirmativos no contexto da partilha sexual pública e assumidamente feminista – faz parte uma realizadora cuja arte transportei para os meus contextos de intimidade, inclusivamente em casal, criando novas e molhadas dinâmicas de prazer. O exemplo que aqui trago é apenas um dos muitos que começam a surgir por aí: na iniciativa X Confessions, de Erika Lust, qualquer pessoa pode enviar a sua fantasia ou confissão erótica, que poderá ser lida por nós e transformada e interpretada pela equipa de produção, realização e interpretação. Assumindo com frontalidade e sem medos uma mudança de conceito, nestes projetos o sexo é a valer: tem valor cinematográfico, não-discriminatório, inclusivo, baseado na igualdade salarial e na prevenção e combate dos riscos físicos ou de saúde sexual e mental de quem o executa.



Deixo então o desafio: espreitar para lá da fenda da vergonha. Há espaço para a pornografia nas nossas vidas – e não há problema com isso. Só falta garantir que surgem mais contextos como este e que há caminhos de saída para quem quer escapar do mundo da exploração sexual, tão “livre” para quem o consome e ainda tão violento para quem o executa. E falta também garantir que estes conteúdos inclusivos chegam a quem não os pode pagar: no mundo da pornografia, a gratuitidade dos conteúdos ainda é perniciosa e a promoção da dignidade não deve ser submissa ao privilégio.



Na incerteza contemporânea daquilo que é o uso dos corpos e do poder que podemos ter ou não sobre eles, sinto que o segredo deve residir nas boas práticas e na proteção de quem trabalha (bem) nesta área. Em nome do prazer, a esta pornografia me confesso. Sem culpas.



Ana Aresta —— ativista, lésbica e feminista

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on email
Share on google