CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Helena Ales Pereira

Em que é que a minha liberdade afeta a tua vida?

“Touch me, touch the palm of your hand to my body as I pass,
Be not afraid of my body”
Walt Whitman, Leaves of Grass



“A Rita é a mulher com quem se casa, tu és para o resto.” Esta frase dita quando eu tinha cerca de 20 anos, numa festa de amigos e colegas de trabalho, ainda hoje ressoa nos meus ouvidos, passados mais de 30 anos. Apesar de me ter tornado uma mulher confiante, sexualmente livre, sempre que uma relação falha, dou por mim a pensar: “Será?…”


É difícil crescer numa sociedade como a portuguesa (infância e adolescência nos anos 70, 80…) e não sermos castradas por uma série de mitos educacionais, sociais, religiosos e até físicos. Durante muitos anos, achava que era “anormal” por ter muita curiosidade sexual e sentir-me excitada sexualmente por vários fatores, desde que era criança. Sentia-me viver atrás de uma espécie de cortina de “anormalidade”, sempre que falava sobre sexo com as minhas amigas, porque aos 13, 14 anos, a maioria nunca se tinha tocado ou até visto o próprio sexo. Eu não só já o tinha visto como já o tinha explorado minuciosamente. Apesar de suscitar muita estranheza entre as outras raparigas, não me sentia diferente. Afinal, eu era uma jovem em crescimento e o meu corpo era o meu corpo, a explodir numa série de sensações que não podiam ser senão naturais e saudáveis, porque eu própria era uma miúda saudável.


Desde jovem, quando tentava falar abertamente sobre sexo como algo natural, percebi que isso contribuía para alimentar ideias preconceituosas sobre mim. Lembro-me de, no final de um ano lectivo, com uns tenros 16 anos, ter sugerido numa aula de Português – a matéria já tinha sido toda dada – uma conversa sobre educação sexual. Os jovens, com as hormonas aos saltos e empolgados pela primavera, receberam a ideia com entusiasmo. Três moderadores e uma turma de quase 30 alunos iniciaram um debate algo tímido, até que falei num tema proibido: a cena de masturbação do filme “9 semanas e ½”. O Carmo não caiu – afinal já tinha sobrevivido a um terramoto e incêndio – mas o queixo da setôra Marília foi parar ao chão e uma das moderadoras não parava de berrar comigo: “Mas tu achas isso normal?! Tu achas isso normal?!” Não só achava, como a praticava amiúde, mas “aprendi” a guardar para mim pensamentos sobre a questão.


Nessa altura já tinha sido colocada num catálogo de categorias. Eu era a “fresca” do D. Pedro V, apesar de só ter tido um namorado no liceu, ex-aluno bem mais velho, que numa única vez tentou enfiar-me a mão em todos os pedaços de carne do meu corpo ainda virgem. A relação durou apenas uma tarde de marmelada atrás do pavilhão A1 porque eu, embora muito curiosa, achei os toques exagerados e demasiado invasores. A fama acompanhou-me longos anos, apesar de só ter perdido a virgindade com 19 anos, já o D. Pedro V era apenas um local do meu passado.



Cresci a perceber que afirmar-me como uma pessoa sexualmente sem preconceitos, que falava abertamente sobre sexo, trazia, na mesma proporção, uma série de julgamentos que dificilmente encaixavam na minha forma de ser e de pensar. Também aprendi a usar isso como uma arma.


Quanto mais sentia aversão do outro lado, mais provocava. E o estigma aumentava. Algumas amigas vinham ter comigo com dúvidas, muitas alimentadas por revistas femininas, nas quais trabalhei durante anos, como jornalista: “Acho que tenho um problema, não consigo ter orgasmos múltiplos”, “aconselhas pornografia?”, “tenho 30 anos e nunca fiz sexo oral”. Eu tentava quebrar todos estes mitos, explicando que no sexo – com excepção de crianças, animais e sem consentimento – tudo é normal. A única regra que seguia, e continuo a seguir, era o respeito pelo outro, mesmo que se tratasse de uma relação de sexo fortuito. E era o único mandamento aconselhado.


Não há absolutamente nada que façamos sexualmente que nos defina como pessoas. Absolutamente nada. Aquilo que cada um faz entre quatro paredes, com outra pessoa, é única e exclusivamente da sua conta. Ter sexo com dois homens ao longo da vida não torna nenhuma mulher melhor do que outra que tenha 100 parceiros sexuais, sejam homens, mulheres ou trans. No que toca a sexo, só a torna uma mulher com dois parceiros sexuais. No ano passado, uma mulher da minha geração, alemã, aparentemente de cabeça “aberta”, daquelas que cospe continuamente o mantra das boas energias, disse-me que as pessoas da ilha onde vivíamos me veriam como “uma prostituta” se não tivesse “cuidado”; e perguntou-me se eu tinha dormido com o ex-namorado dela, porque afinal eu “dormia com toda a gente”… A minha resposta foi: em que é que a minha liberdade sexual afeta a tua vida?


O tipo de comentários que acompanha a minha liberdade não tem só um rosto. Chama-se machismo, preconceito, julgamento, estigma, invasão, desrespeito, castração e repressão. A minha sexualidade é aquela que decido viver, seja ela mais moderada ou libertadora. Mais contida ou variada. Desde que respeite os meus valores e os valores sociais pelos quais me guio, e que incluem sempre o respeito pelo outro, ela não deveria ser vista como um ataque para ninguém, muito menos para a sociedade. E, por isso, não vou deixar de perguntar: em que é que a minha liberdade afeta a tua vida?



Helena Ales Pereira —— jornalista

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