crónica —— dentro de mim

Marta Crawford

A amante do tenente

Toque aqui. Para maior prazer na leitura…




Vestiu-se a rigor com as meias de seda novas de meia coxa e colocou o cinto de ligas que a fazia sentir-se especialmente interessante. Olhou de soslaio para o pequeno espelho e sorriu. Saiu de casa ofegante como se não houvesse amanhã. Estava atrasada, estava muitas vezes atrasada, mas o atraso dava-lhe uma energia inexplicável e um sabor diferente ao que fazia, talvez por isso, acontecesse tantas vezes. Gostava de gerir as pressas, com calma…


No caminho, ao passar pela praça do município, encontrou um pequeno grupo de pessoas que se amontoavam para assistir a um concerto. Sentada ao piano de cauda, no centro do palco, estava uma mulher vestida de preto e, ao seu lado, de pé, a Diva. Carmela sabia que já passava da hora do seu encontro semanal, do seu melhor encontro semanal, mas a alma traiu-a. Reconheceu aquele toque invulgar, de Simone Dinnerstein, a “cantar” o Lamento de Dido de Purcell, o que lhe provocou um grande arroubo. Sentou-se na escadaria da câmara e fechou os olhos. Sempre que ouvia aquele lamento, o seu corpo eriçava e a comoção era quase imediata. 
Em silêncio, cantou em voz alta aquela área e as lágrimas, que instantes antes pareciam ordeiras, transformaram-se numa tempestade primaveril. Já antes tinha causado alguns desastres naturais. Chegou a ser responsabilizada pelas inundações no metro do Chiado. Há anos que isso não lhe acontecia, chegou mesmo a pensar que estava curada. O cenário era de tal forma bizarro, que todos os que ali estavam começaram a ficar com os pés molhados, os tornozelos…  antes que chegasse aos joelhos, o segurança camarário pegou num bote e resgatou-a daquela emoção. 
Mais atrasada do que nunca e, já na margem, sacudiu-se e precipitou-se rua acima. O coração estava cheio, apesar de ter deixado para trás pegadas de devastação.


Quando chegou ao quartel-general anunciou-se à entrada e, eufórica, desceu o grande relvado até aos aposentos do Tenente. A porta abriu-se e um sorriso abraçou-a. 




Carmela conseguia antecipar sensações, o que tornava aqueles encontros ainda mais extraordinários. Quando ele a beijava, ela já sentia as mãos a acariciar-lhe a vulva; quando ele realmente lhe tocava com os dedos, sentia uma língua a lamber-lhe as costas, as coxas, o pescoço…




Os seus corpos tinham uma linguagem muito particular, pareciam feitos um para o outro, pareciam falar a mesma linguagem e tinham a mesma sensualidade. A mesma afinação. Cada centímetro de pele era cuidado, como se se tratasse de uma enorme descoberta que precisava de ser acariciada delicadamente.


Ambos sabiam que eram uma equação perfeita.


Naqueles encontros, o tempo parava. A pele de ambos ficava enrubescida, colada, as mãos interlaçavam-se, os corpos dançavam e as línguas saboreavam-se. Por instantes, mesmo que ele nunca entrasse nela, os corpos fundiam-se num só como num lamento. Apenas um enorme coração se ouvia. Acelerado.


Depois, lentamente e num abraço infinito, o batimento cardíaco regularizava, recuperavam o fôlego e, pouco a pouco, cada um readquiria a sua identidade.


Ajeitou a saia, penteou-se com os dedos e saiu atrasada. Muito atrasada.


No regresso a casa, foi buscar os miúdos à escola, passou pelo supermercado, trouxe as camisas brancas e bem engomadas da lavandaria e, ainda teve tempo para ir buscar o vestido à costureira. Quando chegou a casa, a porta abriu-se e um sorriso abraçou-a.

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