CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Lisa VIcente

Um Salto em frente

Sei que posso engravidar: a ideia não me sai da vida. Seja ela da cabeça ou do coração. Tolhe a fluidez dos momentos em que o João, meu namorado, insiste que sexo com penetração vaginal é o “verdadeiro sexo”. Tudo o resto corre bem e sinto um enorme prazer a invadir o meu corpo e alma. No nosso tocar existe uma união espiritual. Vivemos os nossos momentos de intimidade com intensidade e criatividade. Menos este, em que o meu corpo entra em tensão máxima. “Posso engravidar” repete-se em bloqueio. Sinto quando o João está “para aí virado” com o seu olhar, que já conheço, de “bora aí, descontrai”.

Já falámos disto e nunca chegámos a nenhuma conclusão que mude a situação. Isto, quando não ficamos a discutir. Ele acha que na minha situação é muito improvável eu engravidar. E ele detesta usar preservativo, aceito. Mas eu é que ficaria com a questão da gravidez por resolver. Já fiz tantos testes de gravidez numa ansiedade insuportável.


Eu sei, há consultas. Pode-se ir a uma consulta. Já planeei várias vezes e outras tantas cheguei mesmo a marcar. Mas depois… a ideia das perguntas, da observação de corpo nú e a tortura final que deve ser um espéculo… assusta-me e desisto. Sei que não sou a única pessoa do planeta que detesta a ideia de ir ao ginecologista. Desconfio mesmo que há uma legião imensa, assim como eu, a marcar e faltar a consultas. A adiar o momento.


Mais uma discussão, mais um teste de gravidez. Desta vez decido que é o último. Telefono e marco uma consulta para o dia seguinte. Efeito anestésico provocado pela ansiedade destes últimos dias.

Abre-se a porta e a médica chama: Rodrigo Freitas. Tem um ar tranquilo. Eu respiro fundo e cruzo a porta para território desconhecido.

Entre perguntas e respostas consigo “deitar cá para fora” os anos de dificuldades em chegar até aqui. Foi-me atribuído o sexo feminino à nascença, sou há anos um homem trans em terapêutica com testosterona. Feliz e confortável neste meu corpo de homem. Mas desde que li que existia a possibilidade de engravidar, mesmo em terapêutica hormonal, este receio não me larga. E isso interfere na minha relação com o meu namorado que nem sempre percebe este meu medo.

Falamos das várias opções para não engravidar. Eu achava que contracepção “era a pílula”, mas descubro que existem várias outras possibilidades. Incluindo a “dita da pílula”. Faço perguntas e percebo porque as posso fazer sem receio de que interfiram na minha imagem corporal. E que posso voltar e mudar se não gostar.

“Gostava de ser observado?” A pergunta deixa-me surpreendido. Nunca imaginei que podia escolher. Faço a minha escolha, sem pressão.

Saio com a minha receita de contracepção. Telefono ao João, ainda da porta do consultório, para partilhar este meu passo.

Uma história real para lembrar que o receio de engravidar pode ser um poderoso “tractor” na fluidez dos relacionamentos sexuais. Transversal a mulheres cisgénero, pessoas não binárias e homens trans. Todxs. E para todxs há um passo que se pode dar: escolher.



Lisa Vicente —— Ginecologista-Obstetra

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