Eu quero foder foder foder


Eu quero foder foder/ achadamente/ se esta revolução/ não me deixa foder até morrer/ é porque não é revolução nenhuma/ a revolução não se faz nas praças nem nos palácios/ (essa é a revolução dos fariseus) / a revolução faz-se na casa de banho de casa/ da escola/ do trabalho/ a revolução entre as pessoas deve ser uma troca/ hoje é uma relação de poder/ (mesmo no poder)/ a ceifeira ceifa contente/ ceifa nos tempos livres/ (semana de 24×7 horas já!)/ a gestora avalia a empresa pela casa de banho/ e canta contente porque há alegria no trabalho/ o choro da bébé não impede a mãe de se vir/ a galinha brinca com a raposa/ eu tenho o direito de estar triste.


Adília Lopes (Portugal 1960) – Eu quero foder in Florbela Espanca Espanca



Poetisa-Fêmea, Poeta-macho
(cliché em papel couché)


1

Eu estou nua
eu estou viva
eu sou eu

Eu uso gravata
e, olhe, não foi barata


2

Sou uma poetisa-fêmea
falo do falo

Sou um poeta-macho
sacho


3

Sou um poeta-macho
sou um desmancha-prazeres
sou um empata-fodas

Sou uma poetisa-fêmea para mim
é tudo bestial


4

Sou um poeta-macho
sou arrogante
sou um pé de Dante

Sou um poeta-macho
sou um facto
sou um fato


5

Sou um poeta-macho
tenho um gabinete

sou uma poetisa-fêmea
escrevo na retrete

Sou um poeta-macho
sou um badalo

sou uma poetisa-fêmea
calo-me


6

A poetisa- fêmea
toca viola

o poeta-macho
viola-a



7

Senhora doutora,
os seus seios
são feios

o poeta-macho
assina o despacho



8

Não tenho culpa
não tenho desculpa
não tenho cuspo
não tenho tempo


9

Natália Correia, Mário Soares
antes me ponha
um cacto
mas não me mato





Adília Lopes —— Adília Lopes é o pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, nascida em Lisboa, em 1960. Frequentou a licenciatura em Física, na Universidade de Lisboa, que viria a abandonar quando já estava prestes a completá-la. Começa a publicar a sua poesia no Anuário de Poetas não Publicados da Assírio & Alvim, em 1984. Antes disso, em 1983, começa uma nova licenciatura, em Literatura e Linguística Portuguesa e Francesa, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Pelo meio, antes de a terminar, publica o seu primeiro livro de poesia, Um Jogo Bastante Perigoso, em edição de autor (1985). Em 2000 publica Obra, a reunião da sua poesia e, em 2009, Dobra, que amplia a edição anterior com o que foi publicado entretanto, tal como de resto acontece com a mais recente edição de 2014, aumentada e revista. Tem colaborado em diversos jornais e revistas, em Portugal e no estrangeiro, com poemas, artigos e poemas traduzidos.

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