CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Isabel Freire

O manifesto anti-terceiro sexo, de Dantas

Década de 1920. Biarritz. Júlio Dantas deslumbra-se com as mulheres que passeiam bronzeadas, “insexuadas”, algumas “quase nuas”, de cigarro preso na boca, entre a praia e o hotel. À noite, observa-as bebendo champanhe e dançando ao som da “jazz-band” ou da orquestra dos gaúchos, no salão-restaurante do famoso Casino Bellevue, onde atuaram figuras de referência como Charlie Chaplin ou Joséphine Baker.

“O Dantas é Júlio”, declamava Almada Negreiros no seu Manifesto Anti-Dantas e por Extenso em 1915. “O Júlio é Dantas”. E é médico, político, militar, escritor. No livro em que deambula por Biarritz (e cujo título preferia não revelar já), pensa o género e a sexualidade. Sente-se baralhado e incomodado por… um terceiro sexo. Um sexo “insexuado”, sem razão nem propósito. Ora se Deus, “num momento de mau humor”, criara “dois sexos, em vez de um [o masculino]”, para quê um terceiro? E que seres “em transição” eram estes, que se tinham gerado a si próprios?



Para Júlio Dantas, o terceiro sexo já não era o sexo feminino (embora dele partisse), pois adotava uma mentalidade, atitudes, hábitos e até trajes que se pensavam apenas dos homens. Era um “um sexo aparte”, um sexo “novo”, “de sub-homens”, ou melhor, de um “homem novo”! Pessoas de “aspecto equívoco”, esvaziadas de uma suposta feminilidade, que Dantas diabolizava e nalguns casos condescendia, chamando-lhes as “encantadoras inimigas”.



Mas só nalguns casos. O terceiro sexo estava carregado de mulheres “em fuga do lar”, desesperançadas do casamento (“misogamas”). “Evas agressivas”, “feministas revoltadas”, “agitadoras da ordem mundial”, desejando “prestígio”, “audácia”, “força”. Gente que queria “o mando”.

O terceiro sexo de Dantas está bem longe e bem perto de uma visão não binária do género, que vemos ainda hoje ser atacada, com o argumento de que Deus ou a natureza não escrevem entre linhas. Na obra intitulada As Inimigas do Homem (cuja 1ª edição, em data incerta nos anos 20, vendeu mil exemplares), Júlio Dantas (1876-1962) reconhece nos feminismos da primeira vaga um tumulto desconcertante. O tumulto da ‘desamarração’ do género à figura rígida do que é ser homem e ser mulher. Neste terceiro sexo, pensado há quase cem anos, estão questões essenciais da diversidade e da igualdade, sexual e de género. Dantas diz-nos em As Inimigas do Homem, que era menos perigoso pôr uma arma nas mãos femininas e deixá-las – às mulheres – fazer a guerra, de que permitir-lhes julgar em tribunal, operar numa clínica, discursar no parlamento, pilotar aeroplanos, ou governar países. “Expoente máximo do establishment cultural português da época”, como o define Sara Afonso Ferreira, Júlio Dantas assume-se anti-feminista, bate-se pela preservação da submissão, da fragilidade e da frivolidade, enquanto valores idealizados de um ‘segundo’ sexo, numa ordem desigual e restritiva de género.

Embora maioritariamente desconhecidas do grande público, as feministas portuguesas criaram entre as décadas de 1910 e 1930, organizações importantes de luta por direitos políticos, cívicos, laborais, educativos e culturais. Combateram visões lamentosas e jocosas do movimento pela emancipação das mulheres, entendido por muitos (e por Dantas) como uma “nova política dos sexos” que queria governar o mundo, empresa que nunca aconteceria, com as graças de Deus.


Isabel Freire —— Socióloga, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, no Projeto Mulheres e Associativismo em Portugal 1914-1974, Financiado pela FCT.

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