CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Isabel Fiadeiro Advirta

Bloody Marys

Cá em casa temos 5 úteros. Sobre o meu posso falar livremente, sobre o da minha namorada com um pouco mais de cerimónia como convém ao falar do que não nos pertence. Mas sobre os das nossas filhas – duas dela, uma minha – não posso abrir a boca. Adolescentes não gostam disso. Nem sequer vou dizer se têm período ou se sentem isto ou aquilo. Pressuponham o que quiserem e se nos estiverem já a imaginar num apartamento em confinamento com 5 períodos em simultâneo… talvez já tenha acontecido, não confirmo nem desminto.

Isto para dizer que o período tem um papel relevante na minha vida. E há coisas que cansam. Ver que em 2021 a palavra menstruação ainda faz desviar olhares é tão anos 80, uff. Que as respostas clínicas são praticamente as mesmas em anos, uff. Que se eduque ou se mantenha a ausência de educação sobre este aspeto em particular da saúde reprodutiva das mulheres, uff.

E fui confirmar ao Google: os anúncios de pensos higiénicos continuam a escolher líquidos azuis ou transparentes para mostrar o incrível poder de absorção. Por outras palavras: nem quem quer ganhar dinheiro a recolher o nosso sangue quer que o mundo se lembre que é de sangue que falamos.



O meu primeiro período veio quando tinha 11 anos. Apesar dos esforços familiares para o normalizar, lembro-me que escondia o mais possível, mentia sobre estar menstruada, deitava fora cuecas sujas para ninguém as ver. Era de esperar que mais de 36 anos depois estes gestos de vergonha fossem uma lembrança de algumas vidas– mas estamos longe disso.



Sim, há muitas e boas iniciativas de visibilização e normalização da menstruação, de apps a workshops, de documentários e reportagens a livros, de blogues a expressões artísticas. Sim, há N alternativas práticas e até ecológicas aos pensos grossíssimos e tampões desajeitados da altura. Mas as adolescentes ainda tendem a congelar com o assunto, e o mundo em geral prefere ainda não ouvir falar, não ver, não ter que lidar com períodos menstruais.

Talvez seja por isso que se sabe tão pouco sobre como tratar as dores de período – paracetamol para quem se queixa pouco, pilula para quem se queixa mais e regularmente. Em alguns casos e após insistências há quem finalmente explore a hipótese de endometriose ou outra causa clínica específica, mas a tendência que continuo a ver é mesmo a de encarar as queixas como irrelevantes, coisas de gajas, fracotas.

E isto sem entrar no mais grave: a desigualdade de acesso a bens básicos que permitem que mulheres com acesso consigam ter uma vida regular ao longo do mês, e que outras com menos sorte tenham que desistir da escola, da independência que é trabalhar fora de casa, de vida social e até de útero.

Pior que falar de período, só falar sobre o seu fim. É inacreditável a falta de informação geral sobre a menopausa. E claro, o tabu aumenta – não só é uma coisa de mulheres como ainda por cima é de mulheres que começam a envelhecer. Fujam.

Apanhei um susto quando comecei a ter sintomas. Primeiro veio a irregularidade de períodos, o que no meu caso gerou perplexidade. Mas não sou heterossexual e não me assustei. Depois uns afrontamentos – que coisa insuportável, não recomendo a ninguém. E depois, só depois, confesso, fui ler. E fui ler porque não sabia praticamente nada sobre. Afinal o que nos espera é um processo longo, provavelmente de anos, com irregularidades e possíveis sintomas variados. E até eu, que me considero uma pessoa interessada e atenta a assuntos sexuais e reprodutivos cheguei aqui sem ter ouvido de facto sobre este assunto. Perimenopausa? Que palavra é esta que nem o corretor ortográfico reconhece?

Já estava na altura de mudarmos isto. É fácil começar: Levar as queixas de dores a sério e explorar possíveis doenças. Sair da invisibilidade e da vergonha. Perguntar, afirmar, normalizar, querer saber, partilhar, dar espaço. Apoiar projetos que garantem que mais mulheres no mundo têm acesso a cuidados básicos.

Menos imediato mas importante também é normalizar a menstruação e a menopausa em contexto escolar e educativo – não apenas uma referência à existência e função mas o que significa, os sintomas, as rotas emocionais, a higiene necessária, as opções sanitárias, e enquadramentos culturais e históricos.

Não sei como matar um tabu, mas acredito que demore anos e que passe em grande parte pela visibilidade consciente. Estamos talvez a meio do caminho, nestas coordenadas geográficas. Apressemos o passo, então.


Isabel Fiadeiro Advirta —— ativista feminista LGBT

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