Albano Jerónimo

ACTOR


Preocupa-te a ideia de uma sociedade futura como a retratada na nova série da Netflix “The One” onde entras, em que os pares românticos são encontrados e emparelhados por teste genético? Onde fica o espaço para a escolha, o acaso, o instinto e o mistério que costumam ser os melhores ingredientes para a paixão e o amor?

—— Incluo ainda nessa lista o erro, a falha. Não há nada mais apaixonante do que conseguires achar sexy o erro do outro. O lado anguloso que o outro possa ter. E isso também está intimamente ligado com o meu trabalho. Ou seja, acredito que aquilo que me define e distingue de outro ator é exatamente os limites do meu corpo, as minhas falhas e os meus erros. E conseguires fazer disso uma mais valia na tua vida, ou seja, conseguires apaixonar-te por essas falhas…acho que não há nada mais sexy ou mais interessante do que isso. É tudo muito mais gostoso.

Neste mundo em que parece ser cada vez mais difícil encontrar o grande amor, o grande ‘match’ na vida real poderá ser a ciência, a tecnologia e as aplicações a salvar-nos do desencontro e da solidão?

—— Em certa parte sim. Obviamente tendo em conta os tempos que estamos a viver. Não vou falar de pornografia, ou algo do género, que é outro ‘layer’ da conversa. Mas cingindo-me às plataformas que existem é uma forma de quebrar o isolamento e de continuar a fomentar uma espécie de relação com as pessoas. A relação possível com as pessoas. E depois isso pode de facto desembocar em algo mais íntimo ou profundo. À imagem da Cultura, acho que isso é uma solução de recurso, porque não há nada como uma relação presencial onde consegues sentir o outro, o cheiro do outro, ouvir o outro de outra forma e com outro tempo. Sobretudo com outro tempo. Consegues apreciar a pessoa de outra forma, com outro enquadramento.

De uma forma mais inteira, mais real…

—— Sem dúvida. Não há nada como uma boa conversa, um bom jantar, onde consegues perceber tanta coisa enquanto a outra pessoa fala.

Qual o melhor condimento para a sedução?

—— É a frontalidade. E dito de outra forma, se calhar grosseira, deixarmo-nos de merdas. Vivemos numa sociedade que no Instagram vende corpos perfeitos, vidas perfeitas, e de repente estares em frente a uma pessoa que te diz “olha não, eu não sou perfeito, eu estou torto” tudo isso adensa um possível contacto, uma possível paixão, uma possível relação. Acho que é tudo muito mais profundo, mais íntimo.

O que de mais importante ao longo da vida aprendeste sobre as mulheres?

—— Tenho aprendido a respeitá-las cada vez mais e a perceber que ninguém é dono de ninguém. E que as mulheres têm o espaço que não pertence aos homens e vice versa. Que elas são independentes e cada vez mais têm que ter o seu lugar na sociedade. É inadmissível que uma mulher hoje em dia não ganhe o mesmo que um homem. Por exemplo. E a mulher e o feminino tem-se agigantado na minha visão das coisas e do mundo. E acho que o espaço das mulheres ainda não está no sítio que deveria estar e eu sou uma das pessoas que luta por isso. Nem que seja pelo simples facto de ter uma filha e quero um mundo melhor para ela. O espaço das mulheres ainda não está no espaço que deve estar. É uma luta diária delas, num espírito guerreiro, e tudo isto é altamente sexy. Acho que as mulheres são umas máquinas de sedução permanente.

E esse espaço das mulheres ainda está por conquistar também nas relações e dentro de casa. Falo da violência doméstica, das relações tóxicas, do machismo…

—— Sim. É a História da Humanidade que é feita e escrita por homens, o patriarcado. Já chega disto. Vamos lá voltar a baralhar o jogo e voltar a dar. Porque isto não é justo nem nunca foi. Portanto, está na hora de colocarmos as mulheres no sítio certo. Exatamente iguais aos homens numa perspetiva de direitos, porque isso ainda não acontece na nossa sociedade. E deste vários exemplos, como o caso da violência doméstica que é [ainda] um flagelo lamentável da nossa sociedade. São exemplos de como a mulher ainda é vista em moldes antigos, não atuais.

A sexualidade ainda anda muito mascarada? Ainda há muitos medos e preconceitos para desconstruir?

—— Acho que sim. Acho que a Cultura, a arte, a educação têm um papel tremendo a fazer ainda. Mas ainda temos um longo caminho a fazer. E se vamos falar dos nichos, as pessoas trans, as pessoas bi, tudo, tudo isso são guetos sociais quase, que lamentavelmente ainda têm essa expressão de gueto. Neste nosso país que considero livre, mesmo assim ainda temos tantos exemplos tristes, ainda há dias assinalou-se a morte da mulher trans Gisberta, assassinada em 2006, um crime hediondo que denota uma ausência de conhecimento, ausência de respeito. E sobretudo ausência de respeito pelo corpo do outro. E identidade do outro. Ainda temos muito a fazer através, repito, da Cultura, da educação, acho que podemos atacar estes problemas, flagelos e guetos de uma forma ativa e construtiva.

Enuncia uma frase, uma excerto de um poema ou de um texto que seja para ti bastante afrodisíaco…

—— Trago Pier Paolo Pasolini, na peça “A Pocilga”[com encenação e tradução de John Romão]. Posso dar o início do espetáculo que era eu que dizia, com a personagem Jean. Ele dizia: “Que coisa imensa e curiosa é o meu amor. Não te posso dizer quem amo, mas não é isso que importa…” O Pasolini antes de ser um cineasta, jornalista, é um poeta absolutamente único. Recomendo a leitura.




Entrevista —— Bernardo Mendonça
Fotografia —— Nuno Beja

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