CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Rui Portulez

Sensibilidade e consenso

Há muito que sabemos que o amor, juntamente com a morte, é o grande tema não só da poesia como da vida humana. E que, entre adultos, o céu é o limite, desde que haja sensibilidade e consenso.

Sobre a temática amorosa, nada como chafurdar na cultura popular. Alta ou baixa, é lá que vamos confirmando práticas, ou bebendo inspiração, ou descobrindo receitas.

No caso português, é fácil concluir que a música é a arte nacional por excelência — exploratória, densa, explícita, polissémica e holística — no que diz respeito à abordagem dos matizes infinitos do amor e da sexualidade. Da ingenuidade mais cândida ao marialvismo mais chunga, à perversão mais encrustada; do romantismo mais serôdio ao engate ciber-moderno; do desamor à dor de corno; do ciúme ao poliamor; da paixão assolapada à contemplação ascética; da sedução refinada ao piropo burgesso; do sadomasoquismo ao sadotantrismo; da masturbação ao bacanal…

Que é como quem diz, do pimba ao erudito, do fado ao metal, do hip-hop à música instrumental, Portugal é amor! Se juntarmos a isto o facto de que todas as canções de amor são ridículas, podemos concluir que o contributo dos Ena Pá 2000 (e dos Irmãos Catita) foi seminal e transformador, mas já não é. Os tempos mudaram e as vontades tomaram novas qualidades…

Nasceu este esboço reflexivo há tempos, numa sessão de poesia nos Poetas do Povo, em Lisboa, em que necessitei de recorrer a uma operação textual de corte e colagem sobre visões do amor, e respectiva sexualidade apensa, na lírica portuguesa. Tive a preocupação de ser eclético em relação às fontes e o mais exaustivo possível em relação às imagens que jorrariam na selecta. Pesquisei algures entre a música popular e o deboche soft-porno, e resolvi-me por um classicismo sacrificial e pungente.

À laia de introito, lancei versos de Luís Pignatelli, na voz de Janita Salomé, «Não é fácil o amor, melhor seria arrancar um braço e fazê-lo voar».  Segui com uma visão positivista e magistralmente fixada no imaginário colectivo por João Simão da Silva. Um «Ninguém ninguém poderá mudar o mundo / Ninguém ninguém é mais forte que o amor» que captou a atenção e espicaçou a curiosidade do público. (Este clássico foi originalmente esgalhado por Peter Yellowstone e Mike Tinsley e vertida para português não consegui descobrir por quem, ajudem-me, por favor).

A coisa evoluiu numa incursão mais aventureira, perigosa e metafísica, pelo imaginário de Adolfo Luxúria Canibal, «Tu disseste “quero saborear o infinito”/ Eu disse “a frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis», ganhando depois um fôlego bucólico, contemplativo e rosado no trinar de Bernardo Fachada, «Até consigo imaginar a tua cara, o meu abraço/ E agora o que é que faço, estar à espera ou procurar?». Por fim, culminei com estrépito soprando o vernáculo pragmático de Manuel João Vieira, em fundo pastel e sedutor, «O céu é azul/ Os patos a nadar/ E há tantas estrelas/ No céu a cintilar/ As bolas de sabão/ Caem, caem no chão/ Mas o nosso amor/ É feito de betão, de betaa-ão/ Nunca, nunca deixarei/ De sentir ponta por ti/ Nunca, nunca deixarás/ De sentir ponta por mim/ E é tão bom saber/ Que será sempre assim-im! Nunca nunca deixarei/ De sentir ponta por ti/ Nunca nunca deixarei/ De lamber o teu pipi/ E é tão bom saber/ Que será sempre assim!».

Este poema canção é um exemplo cabal de que é possível conciliar uma abordagem mais poética e etérea do amor com uma linguagem mais despida e vernacular. E que na verdade ela só choca e constrange, quem ainda se choca e constrange com estas coisas, quando é dita ou cantada, quando o texto ganha vida e corpo perante o outro. Mas este é apenas um excerto de uma canção de uma discografia imensa. Se ainda há versos e canções que fazem sentido e têm piada, outras há que deixam um sorriso forçado e amarelo. Manuel João Vieira, tonitruante e transversal poeta romântico capaz de cativar os gostos popular e académico de um jacto, tem vindo a desmontar a hipocrisia e o falso pudor normativos deste Portugal alcatifado (que o já foi mais…) de culpa e de vergonha, mas insiste num machismo que perdeu a graça contextual e num sexismo que foi chão que deu uvas, e que urge erradicar. É altura de actualizar referências e abrir espaço a uma maior pluralidade e subjectividade de pontos de vista e de vida. O mundo mudou e os Ena Pá permanecem na sua missão entretanto cumprida e terminada nos anos 90.


Na música portuguesa, enquanto reflexo da sociedade, temos ainda hoje lacunas graves nas canções sobre o amor e sexualidade homossexuais, mas aí começamos a recuperar terreno dos anos salazarentos em que a ignorância e a hipocrisia alimentavam o atraso civilizacional. Somos melhores a insinuar do que a dizer, e custa-nos chamar os bois pelos nomes, mas há que saber lidar com isso, aprender, mudar, evoluir e erradicar o machismo, homofobia, misoginia e sexismo estruturais.


O cancioneiro nacional é abundante e diversificado, e constitui-se como um requintado banquete para os sentidos, merecedor de uma exploração e análise profundas, enquanto retrato e expressão da sociedade. Contextualizado, revisto e actualizado, criticado e re-percepcionado, a ver se aprendemos alguma coisa com isso e não insistimos em erros “clássicos”. Mas isso terá de ficar para outro dia, com mais tempo.

Bem-vindos ao séc. XXI, com coordenadas LGBTQIA+ e banda sonora com «100% Carisma», assinatura de Vaiapraia. É «Real».

«É 100% a merda do meu agrado/ Tem a calma da Beatriz Granado/ Dividiu comigo o seu Kit Kat/ Riu-se comigo do PNR/ Não há histórias sobre ele/ Não há fotos p’ra ele/ Eu não sei falar sobre ele/ Eu não sei falar sobre ele/ O meu bebé, o meu bebé/ O meu bebé, o meu bebé/ O meu bebé, O meu bebé/ Real real real/ Real real real/ Ele é real Eu prometo, eu tento, eu não raspo com os dentes/ Mas és grande, se eu raspar, tu bate-me que eu entendo/ Senti o míssil da Coreia a chegar ao Japão/ Quando tinhas o teu pau preso à minha mão/ O meu bebé, o meu bebé/ O meu bebé, o meu bebé/ O meu bebé, O meu bebé/ Real real real Real real real Ele é real».




Rui Portulez —— Radialista e produtor musical

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on email
Share on google