CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Jorge Cardoso

Quando a pornografia afunila a sexualidade

Já há alguns anos que Vicente, analista de risco numa multinacional do sector financeiro, aprendeu que a hora de almoço é um momento de oportunidade. Não propriamente de investimento, mas de prazer. Os colegas, “calejados” pelas inúmeras recusas fundamentadas em desculpas suficientemente plausíveis, já nem sequer o convidavam para “alinhar” na deslocação a um dos restaurantes das imediações. No final da tarde, era dos primeiros a despedir-se, encaminhando-se rapidamente para casa, onde, habitualmente, o esperava cerca de uma hora até à chegada de Laura, sua companheira. Não, este jovem adulto de 26 anos, não apresenta traços de introversão, nem tão pouco falta de competências sociais. Simplesmente tinha as suas prioridades. A meio do dia, a procura das amadoras nas inúmeras “prateleiras” do site Xvideos, um dos muitos “hipermercados” da pornografia online, ocorria geralmente de um modo fugaz, de telemóvel na mão num dos WC da empresa.



À tarde, o maior recato e disponibilidade de tempo, permitia-lhe diversificar nas categorias de conteúdos dos seus outros blockbusters preferidos: PornHub, YouPorn e RedTube. A frequência do envolvimento sexual com a Laura vinha decaindo progressivamente, mas a perceção de Vicente ditava-lhe que estava a “cumprir muito para além dos mínimos” e, para além disso, «é sabido que quando se passa a partilhar casa, a vida sexual tende a reajustar em baixa».




Até que chegou a pandemia. E o teletrabalho, para ambos. A rotina alterou-se, mas a sonolência precoce da companheira facilitava as sessões quase diárias, noite adentro, uma mão no rato, outra nos genitais. Assim foi durante o 1º confinamento, com Vicente, e muitos mais. De acordo com informações reveladas pelo PornHub, nesta primeira fase de reclusão caseira, registou-se um aumento de quase 40% nas visitas a este site. Segundo investigações recentes, 25% das mulheres portuguesas reportaram consumir pornografia com alguma regularidade, e aproximadamente 40% dos homens referiram fazê-lo várias vezes ao longo da semana. Voltando aos dados do PornHub respeitantes a Portugal os conteúdos mais procurados são, por ordem decrescente: teen, milf, mature, anal, big dick e lesbian, verificando-se ainda um especial interesse pelas práticas sexuais dos seus compatriotas, tendo em consideração que cerca de metade das palavras mais procuradas estavam relacionadas com o país (tuga, portuguese, portuguese teen, portuguese amateur).


Já no decurso do 2º período de confinamento, o padrão anterior sofreu um abalo. Durante a noite, Laura esticou o braço, na procura de aconchego e apenas encontrou colchão. «O que estás a fazer?… Agora percebo porque nunca te apetece…, Desde quando?…, Quero ver o histórico do computador!…, Deixei de te atrair, é isso?… Não quero estar ao lado de alguém como tu… ». Vicente apenas balbuciou: «é mais forte do que eu…». Nos dias seguintes, os monossílabos alternaram com a tensão do silêncio. Movido pelo medo da rutura, Vicente marcou consulta.


É, em si, o consumo de pornografia um problema? Não, de todo. O aumento dos conhecimentos sexuais, maior tolerância face às sexualidades dos outros, atitudes menos repressivas e inibidas perante o sexo, aumento do leque de práticas sexuais, favorecimento da comunicação sexual, facilitação do clima erótico, são exemplos de efeitos positivos do uso da pornografia. Mas, o uso pode dar lugar ao abuso, e este último pode alargar o passo até à adição. Aqui chegados, estamos naquilo que se chama uso problemático da pornografia. Perdido o controlo (e, tantas vezes, a consciência de que este está perdido), o recurso à pornografia pode ter um impacto negativo nas várias dimensões da vida quotidiana, mormente ao nível da relação amorosa. A polarização da sexualidade (ou do grau de satisfação percebido) no par pornografia/masturbação, pode representar um afunilamento da sexualidade, tendendo a retirar-lhe muito daquilo que a torna uma das vivências mais significativas e prazerosas do ser humano.


E porquê? «Porque me habituei a esta rotina?», pergunta Vicente. Sim, lidamos melhor com aquilo que conseguimos explicar e investimos mais facilmente na mudança sustentada na compreensão prévia. O recurso à pornografia como estímulo para a masturbação, visando um acesso rápido e “descomplicado” ao prazer orgásmico, constitui um fio condutor coerente. Numa matriz social, profissional e relacional cada vez mais marcada por múltiplas turbulências, muitos homens e mulheres aprenderam que a pornografia/masturbação pode ser uma óptima estratégia para lidar com níveis mais elevados de stress, bem como outros estados emocionais desagradáveis. Tal configura algo de adaptativo que tenderá para a repetição. No excesso de repetição e, mais ainda, nas consequências na esfera amorosa , erótica e sexual, estará o problema.


«Na verdade nem ligava muito à pornografia. Mas durante a temporada que estive a trabalhar na Bolsa de Valores de Londres, fiquei muito pressionado e sozinho… Depois, parece que ficou uma fixação». Aos poucos, Vicente vai subindo no funil. Não fazendo da pornografia zona de exclusão, mas, sobretudo, (re)despertando para os territórios de uma sexualidade partilhada e sintónica, que noutros tempos conheceu.




Jorge Cardoso —— Psicoterapeuta e Professor Universitário

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