CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Melissa Lyra

O Estranho Caso do T2 que Encolheu

No momento em que digito isto, oiço a máquina de lavar a fazer um ciclo de brancos, a máquina de secar provavelmente a dar cabo da minha camisola preferida, uma batalha épica que vem da Playstation do meu filho. Atrás de mim está o meu marido em pleno labor, a agrafar e arquivar papéis. Tem os fones postos e está em discreto headbanging, dali ninguém o tira. Fechar-se no próprio mundo é uma arte que ele domina, ao contrário de mim: não consigo desligar-me da presença de ambos.

Passamos o dia inteiro juntos. Tendo em conta que antes do teletrabalho estávamos dez horas por dia longe um do outro, vamos com um superavit de três mil horas – 125 dias a mais – de convívio em dez meses. Muito se fala dos casais separados pela pandemia, mas atentem aos que a pandemia juntou forçosamente no T2.

Casámos há quase 15 anos.

Não, a nossa cama já não estava em chamas antes do confinamento. Se formos honestos, depois de 15 anos juntos dificilmente estaria: diz-se que o mais comum é os magníficos ‘rushes’ de dopamina dos tempos de namoro irem dando lugar a um fluxo estável de oxitocina, a hormona do amor, e o sexo passa a ser, bem… sexo de casados. Experiente, sim, mas em grande parte das vezes previsível – até porque já sabemos o que funciona.

Ele traz café, pousa-o na minha mesa. Não perguntou se o queria, sabe-o.

Adoro ser casada. Adoro ser casada com este homem em específico. Tem uma sensibilidade silenciosa que me comove. É sensato e sólido como dizem ser os primogénitos. É um pai estupendo. E com mil diabos, como é lindo ao sair do duche, com o cabelo nos olhos a tatear pela toalha, totalmente míope. Faz mesmo o meu género.

Nada disso nos blinda contra o efeito dos anos. Nada disso evita a perda da espontaneidade por ter uma criança a vaguear pela casa ou ter a imagem do frango que te esqueceste de tirar do congelador a entrar-te pelo cérebro no momento em que ele te tira a camisola.



Já chegámos cansados a esta versão adulta do quarto escuro. Presos num T2 que não para de encolher, esbarramo-nos um no outro de manhã à noite. Os limites desapareceram. Desesperados por alguma individualidade, procurámos o que fazíamos antes, não antes do confinamento, mas antes de sermos peças nesta engrenagem: voltei a fazer aulas de dança, ele passou a correr mais vezes.


Muito se tem escrito sobre como suportar isto com um mínimo de tesão e a palavra de ordem é sempre inovar: sexting, brinquedos, pornografia inexplorada. Não nos identificamos com nada disso, cria-nos mais pressão do que abre espaço. Mas partilho o que pode ser uma luz ao fim do túnel: a chave pode não ser inovação, mas um regresso ao passado. Aqui, é corrida e dança. Ele volta da sua à hora em que termina a minha. Estamos exaustos, suados e endorfinados. É nessa fisicalidade antiga que o reencontro se dá.

A sala tem a luz baixa, talvez haja música. Ele sugere vinho. Talvez haja uma dança desajeitada.

E, por algum tempo, o T2 encolhe-se sobre nós não a oprimir-nos, mas a empurrar-nos um para o outro. O dia seguinte trará certamente as suas frustrações de confinamento, mas teremos a noite anterior a que nos agarrar. E podemos repeti-la.




Melissa Lyra —— Guionista e tradutora

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