crónica —— dentro de mim

Marta Crawford

Dentro de mim

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Verónica, era o seu primeiro nome, mas às vezes era também Anabela. Dependia dos dias, das situações e da forma como o sol se esgueirava de manhã entre os buracos dos estores do seu quarto e a cobria. Hoje sentia-se Verónica sem dúvida, e aquele raio de Sol que lhe iluminava o ventre estava definitivamente a sussurrar-lhe uma proposta indecente. Ela conhecia bem a melodia da luxúria e em particular daquela que a despertava todas as manhãs. Tinha um ritual muito próprio, ensalivava os seus dedos finos e ligeiramente contorcidos e levava-os ao encontro da sua vulva, tocando delicadamente no seu amor veneris. Levemente e sem pressas acariciava as “oito mil terminações nervosas” do seu precioso clitóris e lentamente transformava-o numa árvore iluminada por milhares de luzes amarelas. Em poucos minutos, o seu corpo começava a exalar um perfume que só ela e os seus escolhidos conheciam. Sentia-se sempre a levitar acima dos seus lençóis, enquanto ouvia aquela sua melodia, que outrora tocara de forma irrepreensível numa das salas de espetáculos mais bela de Berlim, a Markgrafliches Opera House.

Lembra-se, como se tivesse sido ontem, de todos os rostos daquelas pessoas que lhe fizeram a ovação de pé. Aqueles sorrisos e aquelas expressões de comoção dos espectadores, jamais conseguirá esquecer. Nesse dia em Berlim, fazia um calor atípico que a fez transpirar de forma invulgar. E quando se levantou do piano, o seu vestido escarlate vivo, estava desbotado pelo suor e o seu rosto encharcado. Recorda-se ainda de sentir o coração a sair pela boca e da respiração estar muito ofegante. Nunca sentira tanto êxtase na sua vida. Foi um acontecimento único e, foi mais ou menos a partir desse momento, que todas os dias passou a recriar entre os lençóis, esse mesmo êxtase de outrora. E por mais estranho que possa parecer, conseguia. Sem suores, mas com a mesma intensidade com que tocou aquele Noturno Op.9 no.2 de Chopin no dia 27 de abril de 1979. Desde aí, a partitura de Chopin tinha-se entranhado na sua pele e embora já não fosse possível voltar ao passado, por causa da artrite reumatoide, “tocar-se” todas as manhãs, era sem dúvida o momento de maior exaltação do seu dia.


Mas não era o único.


Anabela trabalhava como “datilógrafa” numa seguradora de bairro, e apesar dos seus dedos já não possuírem a delicadeza de outrora, mantinham a mesma harmonia e singularidade ao tocarem no teclado do seu computador de trabalho. Qualquer minuta, por mais desinteressante que fosse e, que tivesse que enviar ao Sr. Rodrigues com urgência, era “escrita” como se se tratasse de uma obra prima. As letras maiúsculas, as vírgulas e os pontos de interrogação do teclado transformavam-se em teclas pretas e brancas e as frases e os parágrafos, em escalas e arpejos. Ctrl alt 3 para sustenidos e os bemóis na tecla B a bold. Qualquer carta, por mais vulgar que fosse o seu conteúdo, transformava-a numa partitura extraordinária. Nunca enviou um email, um pedido de informação ou uma circular, que não fosse uma obra de arte musical. Cordialmente, era sem dúvida a palavra mais melódica de todas elas, e com a qual terminava todos os seus textos.


No final do dia de trabalho, Verónica, punha o seu vestido escarlate, servia-se de um Porto clarificado com duas pedras de gelo perfumado com raspa de noz moscada e bebia-o de um trago. Depois sentava-se na sua poltrona Eames, pegava no seu livro Justine ou os infortúnios da Virtude e contemplava o pôr-do-sol.

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