CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Aldina Duarte

Bendito o fado de ser fadista!

Dei-te um nome em minha cama
Aberta no meu outono
Depois amei-te em silêncio
Que é uma forma de abandono
Dei-te um nome em minha cama
Rasgada em lençóis de sono.

[Vasco de Lima Couto cantado por Beatriz da Conceição, (Fado José António / quadras), numa música de José António Sabrosa.]



Nem sequer é preciso verbalizar, aprende-se só a ver as  mães; não fazer perguntas inconvenientes, saber o que calar e o que dizer, enfim, agradar aos homens da casa e do emprego, adivinhando o que pensam ou sentem. Também é “normal” ser ignorada e raramente elogiada por motivos certos pelos seus pares masculinos, avôs, pais, irmãos, e assim sucessivamente.


O mundo mudou efectivamente, mas a reinvenção dos afectos ainda não aconteceu. Para que mudasse houve mulheres que tiveram de sacrificar toda a sua vida afectiva para seguir uma vocação, no caso da minha profissão, ainda tiveram que arriscar o desrespeito e o despeito, quer como mulheres, quer como artistas.


A coragem que foi necessária para construir uma obra intemporal é magnífica, admirável e digna da minha eterna gratidão. Não há género definido na palavra fadista, o que me encanta, sendo que a alma e o corpo são igualmente sagrados para que o fado se cumpra no canto, ou não fôssemos todos, homens e mulheres, iguais no essencial: o desejo profundo de amar e ser amado, de igual para igual. Esta busca é das mais difíceis de alcançar na vida, demora a aprender, exige força e coragem. Talvez a poesia e a música nos ajudem a chegar mais perto e sem medo de arriscar cara a cara, digo eu na minha lhaneza. O amor virtual promete compatibilidade controlada, amor sem esforço nem sofrimento, resumidamente segurança, uma espécie de actualização dos tradicionais casamentos combinados, assunto que vale a pena aprofundar, lendo o belíssimo livro, “O Elogio do Amor”, de Alain Badiou/Nicolas Truong, das edições70. Porém, a minha escola artística é a da presença, da organicidade do canto, da imperfeição humana na busca de verdade, doa o que doer. Acredito que o amor é a alegria que não existe sem a dor, é a liberdade que não existe sem o risco, é o prazer que não se consegue sozinho. E eu quero morrer a acreditar no amor real.




Aldina Duarte —— Fadista e letrista

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