CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Catarina Molder

Traição para todos

A traição é uma coisa muito séria. É o rompimento de confiança em que se baseia a própria vida. Sem confiança a vida é incomportável. No inferno de Dante, os traidores são os que estão lá bem no fundo – os que minam a existência. Seja no amor, no trabalho, na família, na amizade, mesmo na inimizade, paira sempre o fantasma da traição, como um alerta vermelho para situações que nos deixam inseguros, que nos fazem pressentir como se pode tudo desmoronar, com um simples acto ou a ausência dele. Desde inócuas mentiras ou rupturas, até situações que nos podem matar, a traição é sempre dolorosa.
Jogar com a dualidade da entrega e do perigo é o que torna a nossa vida estimulante e é a única maneira de se conseguir viver, já que demasiada desconfiança ou sua ausência trazem ainda maiores traições. Temos de arriscar e de poder ser traídos. Como em tudo, é preciso ter sorte, estar-se atento, aprender a ler e a (pre)sentir os sinais de perigo e a agir.  
Como início de ruptura e instigador da tragédia, a traição é particularmente eficaz no suporte favorito do ser humano: uma boa história – se fôr real, provoca-nos horror e fascínio, na ficção e na arte, torna-se catártica, lavando as nossas angústias, confortando-nos, estimulando-nos. Na ópera com a sua essência dominantemente trágica, abunda a traição amorosa – o ciúme, o abandono, a vingança, presente em quase todo o repertório, desde o seu nascimento em 1600 até aos dias de hoje e tem gerado os momentos mais sublimes de música e de canto com pungentes explosões de raiva, lamentos de dor infinita, delírios de amor em êxtase, ou de amor que transcende a própria morte. 



Como mulher da ópera e da tragédia, adoro histórias com infidelidades complexas, porque a vida e a relação a dois é sempre complexa, eternamente surpreendente e fascinante.



Os seres humanos, são seres de apetites insaciáveis e de desejos múltiplos e contraditórios, dotados de uma sexualidade com uma “criatividade” sem limites que mexe com tudo e gera as situações mais (im)possíveis. Quando mais complexo melhor. Uma simples e singela infidelidade não é interessante. A angústia, a culpa, o medo, tudo isso potencia o desejo e a potência do sentimento.
Quando existe um amor profundo e apaixonado, o fantasma da infidelidade é excitante, é afrodisíaco. Primeiro é assustador e é uma ameaça para a relação, mas se for integrado na sexualidade do casal, gera uma cumplicidade ainda maior. E existem coisas que por vezes é bem melhor imaginar do que fazer, embora tenhamos pulsões fortíssimas, que muitas vezes compensa transformar em boas fantasias e aprender a jogar com o medo. Até nisso, a experiência mostra-nos, que andar sempre ao sabor das pulsões, se fica aprisionado e se aprisiona aqueles quem se ama, mas mal daquele que anula as suas pulsões. 
Há quem faça da traição e (in)fidelidade um modus operandi e passe uma vida inteira a fugir de si próprio e dos outros. E outros que pura e simplesmente estão no que eu chamo a “cadeia alimentar”, comem o que vem à rede, não gostam particularmente dos seus companheiros e ainda gostam menos daqueles com quem os enganam. Aqui a (in)fidelidade reveste-se de uma espécie de orgulho de quem a pratica e de que ainda se está no activo, da dita “cadeia alimentar” onde anda meio mundo a enganar e a comer o outro meio …mas é com uma traição que muitas vezes começa um grande amor!
Gerir o mundo das atracções e traições requer engenho e arte!


Catarina Molder —— A autora segue a ortografia antes do acordo ortográfico

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on email
Share on google