crónica —— o lugar do outro

Bernardo Mendonça

E é amarta-ssim perdidamente

Acordei com um afago no pescoço e uma lambidela na barba. E mais outra no rosto. A Olívia é danada para a brincadeira a meio da noite. E arranca-me dos sonos mais profundos, ultimamente cheios de angústias para resolver. Os sonhos a tentarem resolver a realidade. Mas é para isso mesmo que os sonhos servem.
Olívia é a minha gata lambona.
Já que despertei a horas impróprias faço o que nunca se deve fazer na cama. Alcanço o telemóvel, a luz do ecrã encadeia-me a vista e, numa ronda rápida pelas redes, leio um escrito que me cativou. É do Aurélio Gomes. O do Eixo do Mal que aqui foi do bem, porque me fez sorrir. E dizia o seguinte: “Na Terra, aterra-se, na Lua, aluna-se, em Marte…amarta-ssim perdidamente…” Pumbas. Numa só frase Florbela e Represas. E eu acrescento, em casa… confina-se. Não rima, mas é uma questão para gerir dificílima. E nos baixa muito a autoestima. Pronto, rimei. Estamos todos mais ou menos péssimos, mas a gerir o dia a dia como podemos e a fatura emocional virá depois. E prevê-se altíssima. Cheia de juros. Saúde mental, onde andas?



Comecei a manhã logo com café. Desde o início desta tragédia, que troquei o chá pelo café e …pelo vinho. Tinto. Do Douro. Bem servido. Bem saboreado. Bem acompanhado. Por mim. E pelos meus à distância de um ecrã.



É bastante difícil televiver e teleamar. Apesar de gastar o tempo em inúmeras videochamadas de trabalho e de, no ano passado, ter estado uns meses a fazer diretos improvisados e inconsequentes com a Marta Crawford, que foram a origem deste projeto e a consolidação de uma boa amizade. E vamos de novo, e é a Marta assim perdidamente… 😉
E porque uma vida não cabe numa só crónica e uma crónica não chega a contar tudo sobre os quase nada do quotidiano que, por vezes, são tanto, retomo uma das histórias do meu último escrito nesta morada. Isto porque esta manhã quando liguei o computador e abri a minha caixa de correio, vi que um leitor me tinha enviado um email empolgado sobre um dos casos que vos relatei, o da Maria José Vale, de 80 anos, que vive atualmente sozinha na aldeia de Cambarinho, em Vouzela. Um local com pouca gente, mas conhecido por ter a maior concentração de loendros do nosso país, uma planta muito rara em Portugal que sobrevive nalgumas encostas da serra do Caramulo.
O tal email dizia o seguinte (e reparem como paulatinamente cresce em entusiasmo e galopa na vontade quando a letra miúda se coloca de pé como quem quer chegar ao outro. Neste caso à outra): “Impressionante este seu texto. Tenho quase 82 anos. Vivo sozinho, em Matosinhos. Logo nas primeiras linhas vi o caso de Maria José Vale. Como ela tem computador, SERÁ POSSÍVEL PERGUNTAR-LHE SE QUER TROCAR MAILS COMIGO PARA SE DISTRAIR! TENHO 4 FILHOS E 11 NETOS, E TODOS OS DIAS MANDO UMA SÉRIE DE PUBLICAÇÕES À FAMÍLIA E AMIGOS, GOSTAVA DE AJUDAR NESTA CRISE.”
Claro que o quis ajudar. E tratei de os colocar em contacto. Quem sabe não surge daqui um romance? Gosto de ter exemplos que me deem horizonte. Imaginam coisa mais bonita do que um (novo) amor aos 80? Que maravilha. Perdão, QUE MARAVILHA. Assim com a letra ereta, de pé, em voz alta, desejante, pulsante, como o senhor me escreveu. Para se distraírem, escreveu ele. Na verdade, o amor e o sexo servem sobretudo para nos distrairmos da inevitabilidade da morte e das chatices da vida. Já agora, a dona Idalina voltou a trazer-me um tacho fumegante de arroz de grelos e bacalhau frito. O céu no prato. “Só não lhe levo mais vezes com medo de incomodar. Mas ao cozinhar para si até ando a comer melhor, fico com mais apetite por saber que vamos comer juntos, cada um na sua casa.” A flor que lhe ofereci e que parece um pássaro rosa, deu outra flor. Desta vez roxa. E saiu do topo do frigorífico, para junto do lava loiças. Porque é onde os seus olhos estão a toda a hora. A beleza das pequenas coisas.




Ilustração —— Vasco Colombo

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