CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

André Tecedeiro

Os ouvidos de Tristão e Isolda

Sou um privilegiado da pandemia: calhou-me ficar fechado em casa com a pessoa que eu mais quero e que também me quer.
Podia não ter acontecido. Nunca tive sorte no jogo das cadeiras e consigo apontar muitos momentos da minha vida em que um confinamento repentino podia ter um desfecho trágico do ponto de vista emocional. Assim, tenho de admitir que foi pura sorte. Andávamos todos por aí a dançar, a música acabou de repente e eu fiquei sentadinho numa lua de mel forçada: um pedaço de céu como o diabo gosta e a canção do Lulu Santos ensina.
Claro que nem tudo são pêssegos e rosas: durante a maior fatia do dia, o feitiço quebra-se e o nosso pedacinho de paraíso transforma-se em local de trabalho, em escola e recreio, tudo sítios que a ética manda separar do relacionamento íntimo. Mas saber que nos podemos retirar para a nossa nuvem ao final do dia dá-nos força para suportar a coexistência destas dinâmicas num só espaço.
Em situações mais complexas estarão aqueles que ficaram afastados à força dos seus parceiros. São os Tristões e as Isoldas do séc XXI: amantes separados pela lâmina do confinamento e do distanciamento social obrigatório. Como fazem para manter a chama acesa? De que magias se socorrem quando lhes falta o toque, o cheiro e a temperatura da pele?



Para conhecer os seus truques, criei um pool nas stories do instagram. E as respostas choveram, todas diferentes, mas fazendo sobressair um surpreendente padrão: o ouvido como órgão do erotismo.

Há quem leia textos eróticos e poemas para os parceiros (as eróticas de Drummond de Andrade como destaque principal), há casais que se masturbam sincronicamente durante chamadas telefónicas, outros que deixam mensagem eróticas no whatsapp para que os parceiros as ouçam sempre que quiserem. Há quem, em conversas, fantasie sobre tudo o que irão fazer quando se voltarem a encontrar, mesmo que não haja um prazo para que isso aconteça. E muitos, muitos relatam o que vão vendo e fazendo durante o dia.
Talvez afinal nem estes Tristãos estejam tristonhos, nem as Isoldas isoladas. Talvez conversem mais que muitos casais que coabitam mas que deixaram de valorizar a voz, os sons e a disponibilidade para ouvir. Por vezes é preciso estarmos privados de uns sentidos para que outros ganhem importância.
Os amantes podem unir-se de muitas formas. O ouvido é uma delas.
Poeta, artista plástico, consultor de recursos humanos


André Tecedeiro —— Artista plástico
Ilustração —— André Tecedeiro

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