CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Catarina Mexia

Apimentar o Tédio

O ser humano convive muito mal com muros, paredes e confinamentos impostos. 

Estar fechado em casa é aborrecido e leva a que se instale uma sensação de tédio. E o tédio pode ser avassalador. Os minutos não passam, vemos e revemos os mesmos canais e séries, lemos os infindáveis posts sobre os mesmos temas nas redes sociais, sempre com a certeza de que há qualquer outra coisa mais interessante que poderíamos ou deveríamos estar a fazer.

A procura pelo estímulo, pela novidade é obrigatória e impele-nos para a nossa “janela para o mundo”, os gadgets digitais, smartphones, tablets, computadores, com ligação à preciosa internet.

O outro, aquele com quem decidimos partilhar, agora de forma compulsiva e quase claustrofóbica, o tempo e o espaço, pode já não ser o príncipe idealizado, aquele por quem o meu coração bate fortemente. 

Ou talvez sim, seja tudo isso, mas o peso de um convívio forçado, de uma proximidade que quase nos rouba a identidade pessoal que se dissolve na do casal, transforma a relação num desafio poderoso. 

O casal do século vinte e um não está habituado a passar todo o seu tempo junto. Geralmente ambos trabalham fora de casa. Cada um pode ter a sua vida social própria. O confinamento impõe a fusão das nossas identidades e revela ao mesmo tempo a nossa necessidade de autonomia. 

Este jogo de proximidade e distância, de autonomia e dependência, é muitas vezes utilizado para compreender a infidelidade no casal. Talvez seja uma leitura adequada neste enquadramento em que vivemos. Num relacionamento que é ameaçado pela proximidade exagerada, podemos ser levados a desviar-nos por uma necessidade de provar a nós mesmos que nem tudo o que fazemos é pertença do parceiro. Permanecermos desejáveis para o mundo é uma preocupação constante em nós.


 
Flirtar ou iniciar uma relação extraconjugal pode ser tão simplesmente uma forma de fugir à sensação alarmante de que a nossa identidade parece estar a dissolver-se no casal.

 
A pandemia impulsionou a infidelidade virtual, pelo menos de acordo com algumas plataformas de encontros extraconjugais. Algumas relatam aumentos de 240% no número de inscritos desde o início, há um ano atrás.
 
Quando questionados, os seus utilizadores referem o combate ao tédio e a procura de estímulo para a relação, como as razões mais avançadas. 

Maria, 48 anos, casada com o João 49. Pais de dois filhos maiores.
 
Em pleno confinamento a Maria reativou o interesse por um antigo namorado da faculdade, a reboque daquela pergunta tão comum nos dias de hoje “estava aqui no facebook a rever umas memórias dos tempos idos, como estás, a saúde? Tens-te safado do bicho?” 

Num casamento marcado por aquilo que nós terapeutas familiares convencionamos chamar “síndrome do ninho vazio”, agravado pelo nervosismo e tédio do confinamento, a Maria encontrou neste antigo namorado a “janela para o mundo”. A redescoberta de si como uma mulher interessante, do paradoxo de um lugar seguro conhecido com tudo por descobrir, a nostalgia da juventude, foram o necessário para alimentar conversas infindáveis através das plataformas digitais. 

Em 2018, Martin Graff, introduziu o termo “microcheating” para explicar como a infidelidade evoluiu à medida que as nossas vidas se voltaram mais para o digital. Este termo define qualquer ato ou comportamento de alguém num relacionamento que indicie o envolvimento emocional ou físico com uma terceira pessoa, fora do acordo estabelecido pelo casal.
 
Estamos num campo em que mais uma vez o género leva a interpretações diferentes: A traição é física ou emocional? Uma troca de mensagens sem contacto físico é uma traição? 

A Maria teve consciência de que o seu longo casamento, desgastado pelo tempo, pela a alteração dos papeis com a saída dos filhos de casa e ainda o confinamento tinham sido o impulso para um ato que ela não reconhecia como aceitável. Foram também o motor para ter coragem de falar com o João sobre as suas dificuldades na relação do casal. Cortou a relação com o Miguel. 

Estão em terapia. 

A infidelidade é um evento doloroso e devastador que é difícil para os casais enfrentarem, mesmo nas melhores circunstâncias. 

O contexto actual pode intensificar e exacerbar as reações habituais complicando os esforços de recuperação. No entanto, se há coisa que aprendi ao longo dos anos de prática, é que os casais podem ser surpreendentemente resilientes se forem capazes de trabalhar em parceria para atender às suas necessidades individuais e enfrentar os desafios. O processo terapêutico pode aproximá-los, ser uma oportunidade de crescimento e tornar os relacionamentos mais saudáveis do que antes da relação extraconjugal.




Catarina Mexia —— Terapeuta familiar

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