CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Nelson Nunes

Porque foder é perto de amar, já diz a canção dos Linda Martini

Quando me foi endereçado o convite para escrever este humilde postal, comentei que eu devo ser a pessoa menos habilitada para falar sobre amor e sexo porque não me apaixono nem sei o que é sexo há uns quantos meses. «És tu e milhares de pessoas», disseram-me do lado de lá. E, como não me importo de pôr a cabeça no cepo, falo de mim na esperança de, às tantas, estar também a falar sobre ti. A dizer-te que não estamos sozinhos e que, nessa companhia, a dor pode ser aliviada.

O que sei é que estou faminto por contacto romântico. E parece-me agora que, mais do que nunca, o sexo passou a ser um gesto de amor. Há entrega e confiança, esta pessoa que se deita na minha cama pode ter o bicho e estou a correr risco de contágio em nome da satisfação da pele com pele, esse conceito aparentemente tão longínquo e raro. Estamos famintos e, simultaneamente, precisamos de conviver com esse monstro chamado medo.

Queremos tanto uma relação, mesmo que seja fugaz, para podermos alimentar uma pequena ilusão de normalidade, de toque, de amor. Apavorados pelo falhanço, como acontece desde tempos imemoriais para estas nossas gerações dos vintes e trintas e quarentas, porque já todos falhámos. Épocas houve em que eu não soube amar, e também outras em que não soube ser amado. Outras ainda, em que o amor louco que eu tinha para dar não merecia reciprocidade, e conheci o travo doloroso da solidão. Uma solidão muito semelhante a esta de hoje, em que as paredes nos cercam e as mensagens e os telefonemas e as videochamadas são manifestamente insuficientes. Ao medo de outrora, acrescenta-se agora um novo: o receio de que a nossa saúde física ceda a um vírus. E ao mesmo tempo, a saúde mental sofre com um outro vírus – a expectativa de um toque, de um sim, de uma quase-prevaricação num amor que nos foi proibido. Pela saúde física, pomos em risco a saúde mental; pela saúde mental, arriscamos a saúde física. Como se nos fosse ditada uma regra: escolhe o teu vírus.

Só obstáculos – se o amor já era fodido, agora ainda pior. Porque amar não é como se houvesse toda uma panóplia de possibilidades diante de cada um de nós. Falarei por mim: sei bem que não sou um ás de trunfo, por isso tenho plena consciência de que não há uma paleta de mulheres formidáveis que estejam dispostas a tentar sintonizar o meu rádio com o delas. Por ser rara, essa ausência de sintonia exacerba a solidão em tempos destes: haverá alguém que caiba nesta casa? Nesta vida? Difícil, ainda mais do que dantes. Agora, estamos seres à procura de vida noutros planetas – comunicamos de astro para astro, sabendo que o toque é hoje uma utopia. Mas queremos tanto pisar território alienígena – que é como quem diz, entrar em lençol alheio.

Esta sombra mais ou menos constante é um desconforto não-letal, e ansiamos a cada dia por uma resposta. Um “não”, que nos liberte da angústia e nos faça aceitar a solidão irreversível, ou um “sim”, que nos alegre e nos diga que é uma questão de pura paciência. Estarmos sem saber é que não. Como diz uma banda que idolatro, a esperança é uma prisão.

Eis a minha sugestão, como destravado nato: agarra no telefone e envia uma mensagem. Ou, que diabo, telefona. Abre o espírito. Diz o que queres. Encontrem, juntos, uma solução. Uma temporária, mas também uma que dê laivos de ser um pouco mais definitiva.


Sejam pirosos, jurem futuros que não sabem se podem cumprir, joguem ao jogo do sim. Fodam – nem que seja pelo telefone, mas fodam. Porque foder é perto de amar, já diz a canção dos Linda Martini. Libertem-se da tensão, já que mais nada pode ser libertado – por agora.

As tuas palavras podem dar conforto, não desperdices esse super-poder. E se, quando já não tivermos de usar os travões perante a tentação da liberdade, as dores nos estraçalharem outra vez, pelo menos sabemos que ainda estamos vivos para poder sentir coisas, e não permanecemos nesta dormência insossa.

As emoções humanas ainda vão acabar com a espécie.

Provavelmente, não será uma crónica que me salvará da solidão. Provavelmente, tu sentirás o mesmo, aprisionado neste ecrã de sempre. Sabermos que não estamos sós na dor deixa-nos dominar o medo com outro fôlego. E, se não houver ninguém desse lado a sentir o que eu sinto, pelo menos deixa-me dizer-te que este acto de escrita já serviu de alívio. Só por isso, já valeu a pena o desabafo.


Nelson Nunes —— Escritor

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