Dobrou-se sobre ela puxou-lhe fogo
Escancarou-lhe os olhos puxou-lhe fogo
Cerziu-se-lhe no peito puxou-lhe fogo
Tirou-lhe pó de cima puxou-lhe fogo
Sentiu-se tão pesado puxou-lhe fogo
Cobriu-a de ar; destapou-lhe a carne; mordeu.

Era fim de tarde era depressa era comprido
Verteu palavras tenras até já não ter voz
Chorou, soletrou-lhe o corpo membro a membro
E foi no soalho a solidão de a desventrar
Tremeu tremeu puxou-lhe fogo

E ela ardeu



Manuel Cintra , do lado de dentro ( Colecção Forma)



Manuel Cintra


Filho do linguista Luís Filipe Lindley Cintra e irmão do ator e encenador Luís Miguel Cintra, Manuel Cintra nasceu em Lisboa, em março de 1956 e faleceu em Lisboa em 2020. Estreou-se como poeta numa colecção da Editorial Presença que reuniu a sua obra. Do Lado de Dentro foi publicado em 1981 e foram publicados mais de duas dezenas de coleções de poemas, muitos deles em edições de autor ou de pequenas editoras. Publicou as obras “Alçapão”, “Não sei nunca por onde” e “Do Lado De Dentro”.
Foi tradutor, jornalista, ator e encenador, sendo, no entanto, a poesia “a sua incontornável e apaixonada estrada”, sublinhou a poeta e dramaturga Maria Quintans.

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