Joana Gama

HUMORISTA


O sentido de humor é um bom facilitador do sexo quando este não corre bem ou falar de sexo é um bom truque para quando não se está a ter graça nenhuma?

Como comediante, sinto que o sentido de humor é uma ferramenta incrível para quebrar o gelo, mas também é um obstáculo enorme à intimidade. Ao se estar com alguém menos “consciente” ou menos “atento” ao outro, as mensagens parecem contraditórias e não se treina uma comunicação mais franca, mais transparente. No entanto, já me foi incrivelmente útil para aligeirar momentos traumáticos no sexo, tanto para mim como para o/a parceiro/a. Ainda assim, não sei se não será só para retirar o constrangimento do momento e impedir que se fale de uma maneira mais íntima.

Falar sobre sexo é claramente uma boa maneira de chamar a atenção, seja em que meio for. É um tema com que todos nos relacionamos e, por isso, ficamos mais atentos, até por mexer com as nossas inseguranças e prazer.  Quando falo sobre sexo, não o faço propositadamente para ter piada. Falo sobre sexo porque é um assunto que tem uma presença constante na minha cabeça e porque o vejo, como qualquer outro assunto, passível de ser falado para fazer humor. 


O que te faz desesperar?

Becos relacionais, por exemplo. Incompatibilidade entre ambos e o “meio termo” não ser agradável para ninguém. Não conseguir empatizar com o outro por me encontrar numa situação em que gatilhos meus ainda por trabalhar tenham sido ativados. Lidar com esse lado mais irracional meu que, embora tente aceitá-lo, me faz sentir ainda tão atrás na maturidade que gostaria de já ter (por me conseguir observar a ser). Muito Gustavo Santos? 


O que é que (não) te assusta na intimidade?

Não me assusta ser vulnerável. Não me assusta comunicar o que acredito serem os meus faux-pas. Comunicar pensamentos e sentimentos, ainda que sinta que são irracionais. Falar de sentimentos de posse, apesar de ser algo que gostaria de trabalhar. Falar sobre a possibilidade de ter uma relação (mais) aberta, embora seja algo que não vejo agora por ainda estar a viver na fase de new energy relationship. Não me assusta que o meu parceiro se sinta atraído por outras mulheres (desde que não se cruze com elas no dia-a-dia, ahah), mas tento aceitar isso com naturalidade, por muito que “tentar” e “naturalidade” na mesma frase seja contraditório.  


O que te faz sentir mais ou menos desejável?

Haver compromisso dá-me mais liberdade para ser e, por isso, sentir-me mais à vontade para fazer o que quero, falar do que quero e fazer coisas mais “fora”. Sinto-me tão mais desejável quanto sentir que a outra pessoa gosta de mim e quer ficar comigo a longo prazo. 
“Responder sem perguntar” é uma atitude que revela o quanto a pessoa está interessada e disponível para se dedicar à relação. Antecipar necessidades é uma forma de amar que valorizo muito – quando não são invasivas.  


Vulvas ou falos? Quem ganha o troféu do teu ponto de vista?

Vieram perguntar à “pior pessoa”. Não vejo “SEXOS”. Acho que quem ganha do meu ponto de vista são pessoas que sentem que o sexo vai além do físico e que já são capazes de sentir ligação com as outras pessoas. Que vêem e sentem o sexo como uma canção e não como uma tarefa ou um teste. 


Deixei de ser virgem: partilha-se ou esconde-se? Ganha-se ou perde-se?

Partilhei logo no dia seguinte assim que cheguei ao colégio, mas não valeu a pena. Ninguém ficou muito entusiasmado. Talvez por termos 13 anos. Acho que falar livremente sobre a nossa vida sexual, mesmo antes do marco propriamente dito de “perder a virgindade” (interessante falar sobre… o que é que se perde e não sobre o que se começa a ganhar).  Acredito muito na partilha para nos sentirmos mais “normais”, para descobrirmos mais sobre os outros. Acho que é na partilha que reside a oportunidade de conhecimento. Agora, talvez seja interessante perceber o verdadeiro motivo da partilha e escolher “bem” a pessoa consoante o nosso objectivo. 


O amor exige uma boa dose de loucura ou uma boa saúde mental?

O amor, para ser amor (ou o que sinto como amor) tem de ter tudo. Tem de ter verdade. Sem expectativas de performance. Tem de ter o ugly beautiful também. E, às vezes, temos de nos fingir sãos para o outro não fugir (trauma de abandono much?). É um jogo entre ambos os lados em que todos representam todos os papéis.  


Fotografia © Paulo Simões

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