João Tordo

ESCRITOR



Quais são os maiores ingredientes para a felicidade? Isso existe ou é coisa só para os filmes e livros? 
Só posso falar por mim. Para mim ao longo do tempo um dos ingredientes é a capacidade de lidar com os problemas e viver um dia de cada vez. E isso já é bastante. Outro ingrediente é a coragem para tentar mudar as coisas que posso mudar e que não são muitas. Grande parte da vida não passa sob o meu auspício. Só mando em coisas pequeninas. Compreender isso faz parte do processo de ser feliz. É aceitar as coisas que não posso modificar, que estão fora do meu controlo, saber lidar com esse stress. Para mim o caminho da felicidade não é o prazer. Não identifico a felicidade como um estado de prazer ou bem estar. Não está escrito em lado nenhum que a vida deve ser um prazer. É uma consequência de como lido com as coisas. Não há um manual que diga que é suposto eu ser feliz. A ideia de que a felicidade se iguala a um estado de prazer não faz muito sentido. Pode ser decorrente. Pode acontecer de vez em quando eu sentir-me bem, mas não me parece que isso seja a felicidade. E fazer depender da felicidade o sentir-me bem faz com que me sinta infeliz sempre que não me sentir bem.

O que de mais importante aprendeste até agora sobre as mulheres?
Aprendi muito pouco. Cresci rodeado por mulheres. A minha mãe, irmã, tias, avós. Não posso dizer que tenha uma grande compreensão. Mas para ser sincero não acho que compreenda bem os homens. Acho que a minha compreensão tem mais a ver com o género humano do que com o sexo em particular. A minha tentativa de compreensão, tem mais a ver com esta coisa de sermos humanos, do que ser-se homem ou mulher. Temos características diferentes, mas no que diz respeito à nossa humanidade mais fundamental não me parece que sejamos assim tão diferentes.

O amor e o sexo são os melhores e os principais ingredientes para a literatura?
Não. São uma parte. Uma história clássica da literatura é o ‘boys meets girls’. Mas existem  milhares de romances em que o amor e sexo não desempenham um papel importante ou fundamental. Embora possa ser interessante ter isso em literatura não tem de ser o principal. Aliás, hoje existe uma indústria semi literaria de escritores que escrevem exclusivamente sobre sexo e amor. E acho essa indústria muito pouco interessante. O principal ingrediente para a literatura é a descoberta da voz certa para contar aquela história. A descoberta dessa voz é o que custa mais e é o que distingue um bom livro de um medíocre. É uma voz certa para contar aquela história.

Quem experimentou o desamor sabe amar melhor?
É uma aprendizagem o amor, o desamor e todas as formas de sofrimento. No que diz respeito às más experiências amorosas podem trazer duas consequências: Uma é tornarmo-nos rancorosos e ressentidos, outra é tentar aprender. Uma experiência negativa pode tornar-nos mais compassivos connosco próprios e com os outros. 

A sexualidade ainda anda muito mascarada? 
Há uma divisão muito mais clara entre sexo e amor. Cada vez mais nítida. E não estou a censurar. O que tem consequências positivas, somos mais livres de experimentarmos sexualmente. Sem termos as amarras da paixão e do amor associadas Por outro lado tudo o que é em excesso acaba por ser um veículo de destruição, de empobrecimento, de um modo de vazio. Com o surgimento de tantas plataformas como o Tinder onde se anda à procura ainda não se sabe bem do quê, também se pode anular a possibilidade de um encontro espontâneo, de algo que a vida nos traz e não estamos à espera. E é aí quando surge o amor. Não é quando procuramos o amor, que pode ser contraprodutivo.



Fotografia © Pedro Ferreira

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