CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Patrícia Pascoal

Confinamento, reflexos da sexologia clínica

Perante cenários catastróficos é habitual colocar-se a vida sexual fora da boca de cena, retirá-la do palco, deixá-la em “ponto morto”. Afinal, “não é altura para pensar nessas coisas”. Quem trabalha em sexualidade conhece bem esta falácia moralista, habitualmente ouvida em contextos como, por exemplo, a doença oncológica, a doença crónica, o luto ou a perda de emprego: “até parece mal nesta altura pensar em sexo”. Mas pensa-se, sente-se, deseja-se. Espantem-se… Até se sonha com sexo.

Existe um diálogo inevitável entre a sexualidade com outras dimensões da vida das pessoas: as condições económicas, o contexto profissional, a rede social de apoio, as relações próximas e significativas, a integração na comunidade, a(s) discriminação(ões), o acesso à informação, as tarefas de vida e o momento histórico. Quem trabalha em contexto clínico conhece bem as autoestradas, mas também os carreiros, que compõem esta rede complexa. Constatando-se o óbvio: o contexto pandémico e as medidas de confinamento estão a remapear a sexualidade.

O estudo que fizemos durante o primeiro confinamento (link) mostra este entrançado de experiências. É expectável que o confinamento afete a resposta sexual? Sim, com particular enfâse na discrepância do desejo entre pessoas que coabitam, e o aumento da tensão e ansiedade nas pessoas que têm encontros casuais, ou relações à distância, e que se pode traduzir em dificuldades eréteis e alterações na experiência orgásmica. E a saúde mental? É um dos caminhos mais diretos, uma auto-estrada, para a perda de bem-estar sexual. Preocupação, tensão, ansiedade, irritabilidade, angústia, e hostilidade são inimigas do desassombro, da entrega, do “deixar-se ir”, do envolvimento. E as pessoas solteiras? E as não monogâmicas, muitas vezes impossibilitadas de viver as suas relações com paridade? E as pessoas LGBTQI+? E as pessoas com diversidade do interesse sexual? Estão mais isoladas, com menos acesso a espaços de afirmação e visibilidade, mais expostas à discriminação, com menos acesso às redes de apoio, ao conforto, à descoberta, à exploração.



O contacto com a pele de outrém é tantas vezes um território apenas imaginado, longe do alcance, da concretização, da sensação.

Nas aplicações que viabilizam encontros presenciais, o tom é por vezes higienista: avalia-se o potencial da outra pessoa enquanto foco de contágio, numa relação de amor-ódio com o próprio desejo (que instiga à ação) e o receio do contágio (que impõe regras sanitárias a cada possível ligação). Abundam encontros suspensos à espera de resultados de testes negativos- condição para aumentar a sensação de segurança e diminuir a sensação de risco. A sexualidade hipervigiada, contida, planeada. Nas relações de coabitação, os focos de tensão surgem devido ao espaço físico que se ocupa em teletrabalho (quando há teletrabalho…) e que tem de ser (re)discutido, assim como o espaço sonoro, as tarefas de gestão, as refeições, as relações com a família de origem… Desenterram-se antigos machados de guerra e encontram-se novas batalhas. Aparece a sexualidade enquanto terreno para exercício do poder nas relações, enquanto meio de transporte da mensagem de rejeição, ou de aproximação.

Mas o confinamento só trouxe problemas sexuais? Não. Há exploração de novas formas de excitação e prazer, dentro e fora de relações, recorrendo à tecnologia. Há, também, mais fontes de informação e apoio através de materiais de ajuda e plataformas virtuais para apoio clínico e mais divulgação de linhas de apoio como a sexualidade em linha (800 222 003). Há mais pessoas a (re)aproximar-se de quem, percebem agora, realmente importa, de quem não querem estar afastadas. Globalmente, telefonamo-nos mais, por períodos mais longos, o calor humano passa, também, através da voz. Toma-se consciência da força dos laços. E no confinamento há, tantas vezes, mais espaço e tempo para nos apoiarmos. Usemo-lo.



Patrícia M. Pascoal
Psicoterapeuta, Presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica

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