E as coisas que vêm até ti.
Repara: o hímen. Pára de sugar fantasmas de ténis e jeans.
As coisas que não controlas, que vêm até aqui.
Escolhem a noite. A tua cabeça pendente.
Invadem o peito, as mamas, o interior das pernas e as virilhas; suor frio.
A água que escorre da boca ao sexo, enxuta: morte na vulva;
dormência.
E ouves ofegar.
Alguém a cavalgar em cima de ti. Podia ser online.
É-te indiferente.
O orgasmo que se derrama dentro do teu sexo.
Não o teu.
As coisas que se vêm. E que não podes reparar.

——

Habitua-te.
Esquece rápido o tempo onde a música era líquida
e os ouvidos tinham sede.
Estar morto e ir trabalhar torna-se tão natural como comer merda.
Não precisas de pós graduações ou workshops.
É uma coisa inata ao ser humano: ser zombie.
Não precisas de ir às putas, a vida encarrega-se de te foder.

——

O trespasse não é uma venda, meu bem.
Serei sempre a tua propriedade; e tu a minha.
É tudo uma questão de acções.
Vê isto como cedência.
O contrato é com a morte.

——

As meninas armadas são as mais belas,
têm no coldre uma arma
lotada de munições,
pronta a ser sacada em inúmeras situações.
As meninas armadas não fazem rimas.
Dão tiros nos poemas
e mandam autopsiar o corpo para reaverem as balas.

——

O acanhamento asfixia.
Portanto:
despe-te, põe-te nua.
Ninguém te vai penetrar a cabeça com ideias sujas.
Há nódoas que são condecorações,
acredita,
sinais na pele que algum deus marcou deixando
uma pista.




Cláudia Lucas Chéu

Cláudia Lucas Chéu é escritora, cronista, contista, poeta, dramaturga e argumentista. É co-fundadora da Teatro Nacional21, da Edições Guilhotina e tem mais de uma dezena de livros publicados. Publicou em prosa poética o livro “Nojo”, pela (não) edições; o livro “Trespasse” (poesia), edições Guilhotina, 2014; e Pornographia (poesia), editora Labirinto, 2016. Em 2017 lançou Ratazanas (poesia), Selo Demónio Negro, São Paulo. Em 2018, publicou o seu primeiro romance “Aqueles Que Vão Morrer”, pela Editora Labirinto; e Beber Pela Garrafa (poesia), pela Companhia das Ilhas. Gosta de pensadores contemporâneos, Bach e hambúrgueres.

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