crónica —— quarto dos hóspedes

Valter Hugo Mãe

Namorar contra a pandemia

Já só dou conta do namoro dos cães. Saio duas vezes ao dia para passear o Crisóstomo e reparo em como ele está mais calmo, permitindo que os outros bichos cheguem perto e se cheirem nas partes com alguma demora e malcriadice. Tirando isto, é o pasmo. A pandemia mandou recolher os braços, tapar a boca, não há beijos. Quem quiser gostar de alguém fica a catar tudo nos olhos, que espelham invariavelmente almas acossadas, fartinhas destes nervos. De já ser quase velho, lembro bem de gostar de alguém e do gratificante de se ser gostado e de como podíamos sucumbir à gula. Uso a memória de todos os afectos para a gestão de cada dia. Rendimento para toda a vida. 


Preocupa-me, pois, o que será dos novos. Esses que se vêem de corpo ainda aventureiro, cheios de peripécias hormonais, malabarismos circenses da química animal, e se encontram obrigados à burca sanitária, rasurados como se atrás de uma vedação que lhes impede o tesão e parece sugerir a timidez e a incapacidade amorosa.


Que raio de tragédia havia de se abater em cima da cachopagem. Logo agora que era a vez de se meterem uns com os outros, munidos de aplicações engatantes e diminuídos de preconceitos, são mandados para casa a discutir sonhos por mensagem e a prometer que serão normais assim que os mandem para a rua. A normalidade, contudo, é do foro da espontaneidade e isto anda a matar a espontaneidade e anda a matar a destreza elementar dos que sobram humanos. 

São Valentim, a menos que traga vacinas no raminho de flores, este ano é meio para adiar. Que os casais confinados já não se podem ver e os que estão apartados querem ver-se mas não podem. Sou a favor de ser, por uma vez, dia de namorar o que nos salva. Os livros com que multiplicamos a vida, os filmes que nos convencem de também sermos um bocadinho heróis de salvar crianças dos incêndios, as sementes de chia que fazem o pudim mais perfeito do mundo, a fundura do horizonte que nos promete voltar a haver distância, uma fuga para tudo. Se passarmos um tempo a namorar isto certamente estaremos depois mais robustos para perdurar saudáveis, felizes, nas relações de sempre. Nas relações com essas pessoas que sabemos bem amar mas que estão momentaneamente como demasias nos nossos dias. 

Sugiro que nos desfaçamos em poemas. Poemas para prometer eternidades. Tesão e eternidade. Porque tudo num verso propende para ser potente. Nada tem de apequenar-se ou adiar. Sugiro que, limitados nos rituais, sejamos todos poetas uns para os outros, brilhantes na intenção de jurar o beijo, jurar o corpo, ansiar pela vida inteira ao lado de alguém.



Valter Hugo Mãe —— Escritor / Ilustração de Valter Hugo Mãe

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