crónica —— o lugar do outro

Marta Crawford

Cronica de Marta

Isto de ser gay começa por ter uma dificuldade, comum às mulheres hetero: temos mesmo que aturar homens. 

Estão a ver os corredores azuis e cor-de-rosa que agora há em várias lojas de brinquedos, graças aos superpoderes do marketing? Talvez até mais do que nunca, graças a estes superpoderes, o problema do género – e do sistema de desigualdade que continuamos a reproduzir desde a infância – é que incentivamos as pequenas pessoas humanas a especializar-se. Cerca de metade dessas pequenas pessoas humanas são incentivadas a procurarem liberdade, a competirem entre si, a enfatizarem o individual, a acreditarem que fazem as regras, a terem como objetivo a liderança e a ocupação do espaço público. E são incentivadas a não perder muito tempo e energia a pensar em coletivos e a aprender a cuidar e a perceber que em geral a sabedoria é partilhada e a questionar as razões por trás do que vão sentindo e a partilharem os mistérios do sentir entre si – e já agora também com a outra metade. 

Pronto, felizmente, as pequenas pessoas crescem e podem fugir um bocado a isto – ou a história seria de horror. E há vários homens que fazem algum – e às vezes muito – do trabalho de casa emocional que é fundamental para melhores relações e para a construção coletiva daquilo que deve ser a vida: com liberdade, com amor pela liberdade, mas por uma liberdade que seja sempre partilhada e que só exista com comunicação e noção (digerida, sentida, interiorizada) das outras pessoas. 

Mas a verdade é que os homens tendencialmente partem com desvantagem. E é essa uma das desvantagens de ser gay: ter que aturar quem não fez os trabalhos de casa. 

É que isto depois aparece no sexo e nas relações. 

Que os papéis de género também aparecem em papéis de sexo.

Desde logo, na pressão: independentemente do sexo, as pessoas tendencialmente querem e gostam de sexo. Mas as mulheres passam a vida a tentar convencer-se de que tendencialmente querem ou gostam menos e os homens passam a vida a tentar convencer-se de que tendencialmente querem ou gostam mais. Isto tem certamente consequências nas relações hetero mas também tem nas relações entre homens e entre mulheres. 

A ideia de que dois homens têm que ter mais sexo por serem dois homens não é um reflexo de liberdade, é um reflexo do mesmo tipo de restrição que o sistema de género impõe: é-nos pedido que tenhamos – ou procuremos mostrar que tentamos e queremos ter – mais sexo; corresponder é obedecer. E isto numa lógica de uma pseudo-naturalização animalesca do sexo, como se se tratasse de uma “necessidade” individual, como se o sexo não fosse sempre comunicação – e, portanto, relacional. A necessidade de “sexo” ou é relacional e comunicada e partilhada ou não é necessidade de “sexo”. Já a ideia de que é uma “função” a desempenhar é aberrante: como se houvesse homens (porque isto parece que vale sempre para os homens) que, coitados, são reféns de uns corpos que pelos vistos separariam do resto, não sei bem com base em que procedimento cirúrgico. 

E depois vem o drama do falocentrismo e da obsessão com a penetração, mal importado do mau sexo hétero: desde logo, e no sexo gay, a ideia de que haverá “papéis” definidos (“ativos”? “passivos”?) em função de lógicas de penetração sempre falocêntrica, como se houvesse alguma relação óbvia entre isso e sexo. Sexo é comunicação e envolve comunicação física, mas felizmente temos muitas formas de tocar e de expressar desejo e vontade de prazer conjunto. 

Pelo que fui aprendendo, ainda que não de experiência na primeira pessoa, o sexo Lésbico (eu escrevo sempre Lésbico com maiúscula, por uma questão de deferência e respeito) não depende necessariamente de uma lógica de penetração – e sempre foi isso que me fez sentido. Sabem a velha pergunta: “Mas afinal o que é que as Lésbicas fazem?” A resposta é “Tudo o que lhes apetecer e que for bom”. Não há regras bem definidas, a coisa não encaixa na norma e há inevitavelmente buscas em conjunto de formas de prazer. Há a liberdade de permitir envolvimento e de descobrir outros mundos de expressão de desejo – e a penetração, seja ela qual for, em muitos casos, é secundária. 

Sim, as relações entre pessoas do mesmo sexo são muito afetadas pela homofobia: pela falta de reforço social destas relações, pelo défice histórico de visibilidade e de construção identitária conjunta, pelo medo que, sempre, subjaz. É na homofobia que vivemos, foi na homofobia que crescemos – e é na homofobia que temos que aprender a afirmar-nos e a gostarmos de nós e a conseguirmos comunicar, para estabelecermos relações, com outras pessoas que passaram por processos parecidos, em parte, com os nossos. E é no sexo que podemos também partilhar o mundo que sentimos com quem sente o mundo como nós – e exorcizar medos e repressões e sistemas de poder. 

Mas, no sexo e nas relações, o desafio continua a ser o de conseguirmos ir construindo mais espaços de liberdade, sempre partilhada, também face ao pesadíssimo sistema de género e ao que impõe sobre a sexualidade. Se conseguirmos, talvez as relações – todas – possam melhorar e talvez o sexo (nomeadamente entre homens) possa ser o que merece: cada vez mais Lésbico. 

Paulo Côrte-Real * Professor Universitário e Ativista