crónica —— o lugar do outro

Bernardo Mendonça

Amor também é isto

Passo a vida a contar histórias dos outros, mas há umas em particular que ecoam cá dentro e assim ficam dias, semanas, anos, para sempre. Talvez porque me reconheça, de alguma forma, nelas. É o caso desta. No dia em que completou 80 anos, confinada e isolada em casa, Maria José Vale colocou rolos no cabelo para ficar mais bonita, preparou um bolo no forno, acendeu uma vela e cantou os parabéns a si própria. É melhor ser alegre que ser triste, ensina a canção de Vinicius de Moraes. Maria José sabe disso e tem procurado resistir como pode à solidão e à angústia deste confinamento. “Foi uma cena muito bonita a que fiz no aniversário. Dou sempre a volta por cima. Desenfio-me. Mas como estou muito solitária, tenho quebras de humor, mudanças súbitas de comportamento, sinto tristeza, ansiedade. Dou por mim a falar alto sozinha, a revoltar-me com as notícias na televisão. O sono também não anda bom. Por vezes, acontece ficar acordada a noite inteira no computador, a escrever no Facebook, textos e poemas para não me sentir tão encurralada. Agora nem posso ir ao meu médico de família, para ter uma conversinha com ele e me queixar destas instabilidades, parece que mudo de personalidade.” 

Há dias relataram-me o caso de uma jovem na casa dos 30, que sentia tal solidão no vazio do seu apartamento que começara a abraçar-se a si própria. O confinamento para os solteiros é particularmente tramado. Eu próprio, que vivo atualmente sozinho, não consigo fugir a momentos de profunda melancolia e tristeza. Há muito que não abraço, que não beijo, que não danço, que não estou como quero com os meus familiares e amigos, e, como está a acontecer com toda a gente, parte da minha vida está em suspenso.  

E sei bem que estou a falar de uma posição de enorme privilégio: tenho trabalho, amigos, uma casa confortável, livros e comida no prato. Mas, de vez em quando, também desabo. Vou contar duas coisas que me comoveram e ao contá-las arrisco a desabar de novo. Não é nada demais, mas para mim foi tanto.  

Numa troca de mensagens com uma amiga, deixei escapar que estava em baixo, que não havia razões em concreto para isso. Mas estava. Uma qualquer descompensação química de final de dia resultante destes estranhos tempos. Ela ligou-me de imediato. Fez-me rir. E soube mesmo bem. No dia seguinte, já ao fim da tarde, tocaram-me à campainha. Estranhei. Porque à exceção do carteiro e da minha vizinha do andar de baixo, a dona Idalina, ninguém tem aparecido. Subiram com uma encomenda. E de um cesto saiu uma garrafa de vinho tinto do Douro e duas doses de massa italiana. Percebi logo quem tinha sido a autora dessa surpresa e o gesto soube-me como um abraço apertado, daqueles quentes e demorados, que consolam.


E para celebrar o momento coloquei música e uma toalha bonita na sala de jantar como se fosse noite de festa. Quase pareceu que tinha ido jantar fora. Acho até que ainda não consegui agradecer devidamente esse gesto. Obrigado.  


E já que referi de raspão a minha vizinha, a dona Idalina, senhora gentil e sábia que vive no andar abaixo do meu, vou-vos contar também como nos temos amparado nestes últimos meses. Cada um de nós passa horas enfiado entre quatro paredes. Eu em teletrabalho, ela a ver torneios de snooker ou a tomar nota de receitas de culinária na televisão. E passou a ser um ritual meu bater à sua porta quando saio para correr e lhe perguntar como está. E, naqueles minutos, ela ensina-me sempre qualquer coisa. Como arrumar bem os tupperwares, como deixar as toalhas a cheirar a lavado nas gavetas, como transformar uma batata doce numa planta jeitosa dentro de um frasco com água. Fico sempre enternecido a ouvi-la. E desconstruo sempre as suas lamúrias com frases como “deixe lá, que quando chegar à minha idade vai ser bem pior”. Ela escangalha-se a rir. Eu também. E fica sempre tudo melhor. Há dias a dona Idalina trouxe-me um tacho fumegante com arroz de grelos e filetes de pescada. Terá sido o melhor arroz de grelos que comi até hoje. “Não gosto de cozinhar para mim. Mas pôr-me a imaginar um prato para si dá-me um sentido para o meu dia. E olhe, que até me trouxe apetite. Já provei e soube-me tão bem”, disse-me ela de enfiada. Quis tanto abraçá-la. No dia seguinte, levei-lhe um bolo de laranja e uma planta que parecia uma exuberante cauda de um pássaro rosa. Amor também é isto. E a solidão acompanhada custa menos e dá-nos um fôlego extra para aguentarmos até ao fim desta tormenta. 



Ilustração de Vasco Colombo

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