CRÓNICA —— QUARTO DOS HÓSPEDES

Aldina Duarte

A sexualidade é para aqui chamada, sim!

Nunca se falou tanto de sexo e tão pouco de sexualidade. Quem nunca confundiu falta de sexo com falta de amor ou vice-versa, vá a pé a Fátima, logo que possa, para agradecer o milagre. Parece-me um raciocínio preguiçoso e perigosamente falso dizer-se que um é a expressão do outro, seja lá como for,  a tomar pelos equívocos causadores de tanto sofrimento. Muitos crescemos e vivemos na busca permanente desse mistério secular, quando amor e sexo se fundem nas suas naturezas confundíveis, mas incorruptíveis, até aos confins da eternidade. A sexualidade humana é complexa. A expressão “máquina sexual”, como é o caso dum vibrador, (liga/desliga), por exemplo, é algo que não se aplica às pessoas. Daí o meu respeito pelas prostitutas e as freiras; por agora, não quero entrar por aqui. Não fora a visão conspurcada do sexo e os maiores palavrões seriam um detonador de memórias felizes para contrabalançar os maus momentos em que dizê-los é quase um retorno à realidade. Não estou a fazer a apologia das asneiras, mas sim a sinalizar esta questão da linguagem que é um lema escrito no espelho: “o sexo é mau e sujo”. A sobrevalorização sexual e a violação da privacidade vigentes nada têm que ver, na minha reflexão, com a extrema importância da sexualidade nas nossas vidas. É absurdo isolar qualquer membro do resto do corpo, incluindo o cérebro, por isso, conversar, e rir, e dançar, o que for, tudo intervem no erotismo, na sedução, no prazer de um encontro ou partilha amorosos e/ou sexuais.


Na história da humanidade as mulheres foram(?) uma espécie de “máquinas” assexuais, dentro ou fora de casa, uma triste realidade para todos, também para os homens, que andaram sempre a “fazer amor” sozinhos.

Falo deste assunto porque estamos fisicamente mais sós e ameaçados do que nunca, e acredito que temos de reinventar, singularmente, também a nossa sexualidade, não confundir com relação sexual: falo das motivações e das palavras, que são a nossa matéria mais disponível, seja por escrito, seja de “viva voz” nos nossos telemóveis, seja cara a cara. Talvez estejamos num tempo certo para arriscar na criação de uma linguagem emocional e racionalmente mais rica, em nada confundível com falsas intimidades facebookianas, (likes, emojis e afins), ou outras. Só sabemos dar forma(s) ao que sentimos porque pensamos, caso contrário, cabeça e corpo separam-se e são só desventuras.



Aldina Duarte —— fadista e letrista

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